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Autoria colaborativa e validação textual: o caso Wikipédia

Acaba de ser publicado meu artigo “Autoria colaborativa e validação textual: o caso Wikipédia”, na Contemporânea – Revista de Comunicação e Cultura do PósCom/UFBA. O texto aborda as mudanças nas formas de validação em publicações na rede, tendo como objeto de estudo a enciclopédia eletrônica colaborativa.

Wikipedia

Segue o resumo do artigo:

“O processo autoral da Wikipédia, aberto e colaborativo, abala o modelo tradicional de produção e validação textual, baseado nas credenciais do especialista ou do escritor renomado. A fim de explorar este fenômeno, este artigo parte da premissa de que a autoria e a autorização do texto são construções históricas que variam em diferentes épocas e constituições culturais. Num primeiro momento, é feito um breve percurso por esses deslocamentos, desde a Antiguidade até o período moderno, pontuando algumas de suas inflexões. Em seguida, é analisado o modelo editorial da enciclopédia eletrônica, estruturado em um sofisticado sistema sociotécnico que, diferentemente de outras publicações colaborativas presentes na rede, tende à centralização. Por último, é apresentado um estudo de caso do verbete Faixa de Gaza da Wikipédia Lusófona, no qual pôde ser observada a dinâmica de interação entre os colaboradores.”

Para lê-lo na íntegra, clique aqui.

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Tecnologias da cooperação

Uma das vertentes de minhas pesquisas, desde o mestrado, é o estudo das tecnologias de cooperação, isto é, dos instrumentos que têm sido criados para gerenciar a qualidade nos ambientes colaborativos.

Tenho trocado ideias sobre este tema com o Carlos Nepomuceno, jornalista e consultor especializado em estratégia no mundo digital. Assim como eu, ele está interessado em pensar a nova dinâmica da comunicação distribuída e as formas de administrar as interações em rede.

Conheça o blog do Nepô.

Na última sexta-feira, dia 7 de junho, eu participei do hangout que ele promove regularmente. Conversamos sobre vários tópicos, passando pelas tecnologias de cooperação e por meus estudos sobre o website Slashdot, a Wikipédia e a autoria em rede, entre outros assuntos.

Quem tiver curiosidade, pode conferir aqui o vídeo da conversa:

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O equívoco da Folha em restringir os comentários

A Folha de São Paulo acaba de tomar a decisão controversa de restringir os comentários na versão on-line do jornal. O resumo é: “Quer dar sua opinião à vontade? Então, pague.” Quer dizer, só os assinantes do jornal é que poderão comentar à vontade. Os eventuais visitantes podem comentar, mas seus comentários terão que passar por aprovação.

Leia a coluna de Suzana Singer, ombudsman da Folha, sobre a decisão.

Quem me chamou a atenção pra isso foi o Carlos Nepomuceno, que postou a discussão no Facebook e também escreveu no seu blog

Mais uma vez, vemos a dificuldade de empresas de comunicação (como o caso do Instagram, que abordei recentemente) em lidar com a produção em rede.

Suzana Singer argumenta que a decisão foi necessária porque no modelo antigo era impossível gerenciar a qualidade do conteúdo e controlar o que ia ao ar.

Esse é o maior equívoco: pretender controlar de modo unilateral a comunicação, pois na rede seu modus operandi é a interação. Quem lê quer também opinar, dialogar, debater. O que faz com o que mude significativamente o papel do jornal: não é mais somente uma publicação que divulga notícias, mas passa a ser um espaço público de discussão sobre os temas em pauta. E que tem que lidar de forma positiva com a produção dos leitores. Isto é, incorporá-los em sua dinâmica editorial.

Claro que há também muito ruído na comunicação em rede, como os trolls que só querem atrapalhar a discussão. Mas dá para filtrar, criar um ranking de acordo com a relevância, para dar mais qualidade ao conteúdo. E a melhor maneira de fazer isso é com a colaboração dos leitores.

Em minhas pesquisas de mestrado e doutorado, eu me dediquei também aos estudos empíricos de modelos de validação distribuída em interfaces colaborativas. Investiguei como foram criadas na prática soluções para qualificar grande quantidade de conteúdo de forma coletiva e distribuída.

Minha dissertação é sobre o Slashdot, que já foi definido como o avô dos blogs. Criado em 1997 por hackers e para a comunidade hacker, funciona como um fórum de discussão que recebe em cada tópico centenas de comentários.

Com tantas intervenções, não daria para uma pequena equipe dar conta de moderá-las. Por isso, eles criaram um sistema muito inteligente de moderação distribuída que destaca as mais interessantes e esconde os trolls. Tem um resumo do meu estudo neste artigo e o estudo completo na dissertação. Ou você pode visitar o Slashdot e conferir diretamente.

Outros sites se inspiraram nesse sistema pioneiro e criaram instrumentos para deixar que o próprio público avalie os comentários. As soluções encontradas são diversas como a do Huffington Post, que tem um sistema de moderação formada pela equipe da publicação e por colaboradores da comunidade de leitores. Vale conferir.

Já o inglês The Guardian, um dos jornais que melhor entende a lógica da Internet (chega a chamar os leitores para participar da apuração de uma notícia), tem uma interface pobre para os comentários, mas permite que sejam recomendados por outros leitores – o que acaba criando um índice de relevância que destaca o mais interessante.

Esse tipo de avaliação distribuída está presente em um sem número de iniciativas na rede. No Mercado Livre, por exemplo, você sabe que um vendedor é confiável pelas avaliações de outros compradores. Ou o aplicativo Taxibeat, um serviço de táxi no qual, da mesma forma, cada motorista tem um índice de acordo com a avaliação dos passageiros.

A ponto-chave é: a rede é interativa e distribuída, e a melhor forma de estar nela é incorporando essa dinâmica, em diálogo com seu público. Para quem não entender isso, a tendência é perder público e relevância.

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Interação e coletividade marcam autoria em tempos de Internet

A Agência USP publicou uma boa matéria sobre a minha tese, no último dia 23. Embora, claro, não aborde todo o conteúdo da pesquisa, o texto faz um bom resumo do estudo. Reproduzo aqui matéria escrita por Bruna Romão

Controle e avaliação ainda são critérios importantes na autoria em rede

O ambiente digital da internet tem permitido cada vez mais a participação de usuários na construção de conteúdos, seja por intervenções diretas, como na enciclopédia virtual colaborativa Wikipédia, ou por diálogos no espaço reservado a comentários em blogs ou sites de notícias. Marcada pela coletividade, porém, essa nova forma de escrita não deixa de lado a relevância do autor. “Nesse novo padrão autoral interativo, o crédito pela autoria continua muito importante”, explica a jornalista Beatriz Cintra Martins, responsável por uma pesquisa da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP que estudou os aspectos envolvidos nesses processos autorais interativos de escrita na rede mundial de computadores. A tese de doutorado Autoria em rede : um estudo dos processos autorais interativos de escrita nas redes de comunicação foi defendida em março de 2012 e contou com a orientação do professor Artur Matuck, da ECA.

A partir do estudo, foram identificadas duas formas de escrita em rede, tipificados pela pesquisadora. Em primeiro lugar, haveria a autoria interativa colaborativa, em que as pessoas podem interagir diretamente com os textos. “Aquele texto é feito de forma realmente compartilhada e coletiva e será resultado de várias intervenções de forma colaborativa”, relata Beatriz. Esta categoria corresponde às interações que acontecem na enciclopédia virtual Wikipédia, por exemplo, e outros websites que partem do mesmo princípio colaborativo, as plataformas wiki.
O segundo tipo de autoria é denominado dialógico e se refere especialmente à relação encontrada em blogs, em que um texto principal tem novas observações agregadas a si em função de comentários dos leitores. “O texto principal está publicado e não é alterado. Mas por meio dos comentários são acrescentadas novas informações”, comenta a jornalista.

Antes de chegar a essas conclusões, a pesquisadora observou e realizou pesquisas empíricas com a Wikipédia, estudando o histórico do verbete Faixa de Gaza e contribuindo para as páginas Jogos Olímpicos de Verão de 2016, Direito Autoral e Creative Commons, bem como analisou o website Overmundo, em que os próprios usuários produzem notícias sobre cultura brasileira, nas quais há espaço para comentários e avaliações de outros internautas. Também fizeram parte do estudo a criação de um blog chamado Autoria em rede, que permitiu interação e diálogo com o público, além de maior divulgação da pesquisa, e um experimento wiki, em que uma plataforma aberta foi disponibilizada ao público do site, permitindo-lhes contribuir para um artigo sobre Autoria em rede.

A autoria ontem e hoje

O trabalho também reuniu dados de pesquisa histórica sobre a variação da produção e atribuição de textos desde a antiguidade até os dias atuais. Apesar de aparentemente inovadora, a concepção coletiva de autoria já existia durante a Antiguidade Clássica e a Idade Média. É durante o período moderno, apenas, que surge e se fortalece a noção de autoria e criatividade ligadas diretamente à subjetividade. “A própria modernidade traz um projeto de um sujeito autônomo”, ressalta Beatriz.

A autoria em rede não é apenas reflexo de avanços da tecnologia e da internet, mas, especialmente, resultado de um processo de questionamento da concepção de autor individual e autônomo iniciado ainda no século XIX, com apogeu na segunda metade do século XX. Embora deslocada e dissolvida, ela ainda carrega reflexos da concepção moderna: reputação e credibilidade continuam importantes. Para administrar essas questões, a comunidade virtual cria suas próprias ferramentas de controle e avaliação.

Validação de conteúdo

O website Overmundo e uma infinidade de sites e blogs utilizam um sistema distribuído para validação de conteúdo, em que os usuários tem a possibilidade de aprovar ou não os textos, atribuindo-lhes notas, estrelas ou likes. Esse modelo, que pode ser chamado de rankeamento, é comum inclusive em sites de compra online, como o E-bay. “São maneiras que estão sendo criadas para substituir o modelo tradicional em que essa avaliação passava pelo crivo de especialistas”, comenta a jornalista.

Já no caso da Wikipédia, explica Beatriz, a avaliação é mais centralizada. Existe uma série de regras que os contribuintes devem seguir para que o conteúdo acrescentado por eles seja mantido nos verbetes, como, por exemplo, citar as fontes das informações incluídas.

Em seu sistema de validação e fiscalização estão envolvidos usuários com maiores privilégios e até mesmo softwares que revisam e editam os conteúdos. “Uma grande parte das edições é feita por robôs. E também há robôs que inserem textos na Wikipédia a partir de bancos de dados abertos”, conta. Ao todo, mais de 20% do total de edições do site é feita por robôs. Não é incomum, relata Beatriz, em função desse modelo centralizado de validação, que ocorram as chamadas “Guerras de Edição”, entre novos usuários, com menos prática e reputação, e verificadores de conteúdo.
A reputação dos colaboradores também é levada a sério na “enciclopédia livre”. Apesar de ser possível a edição anônima, os colaboradores identificados e com o maior número de contribuições reconhecidas ganham maior poder, constituindo-se em administradores supervisores do projeto.

A comunidade em rede encontrou, ainda, outras maneiras de reconhecer e creditar autores. “Uma referência é o movimento software livre, que conseguiu consolidar um modelo produtivo interativo, cooperativo e baseado na reputação”, lembra a pesquisadora. Um dos exemplos mais famosos desse modelo é o sistema operacional Linux, para o qual centenas de programadores colaboram voluntariamente e são identificados no pedaço do código que aperfeiçoaram no programa. A jornalista cita também a rede social de microblogs, Twitter, em que o retweet, réplica da postagem de outra pessoa, constitui-se em uma forma de dar referência à fonte da informação.

Link da matéria na Agência USP

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A credibilidade da Wikipédia, mais uma vez, em xeque

Alguém pode ser mais gabaritado para falar da inspiração de uma obra do que o seu próprio autor? Pois a Wikipédia acha que não. Este foi o cerne de uma briga que envolveu recentemente o escritor norte-americano Philip Roth e um administrador da Wikipédia em língua inglesa. Ao pedir a correção de uma informação sobre em quem teria sido baseado o seu livro “A marca humana”, Roth recebeu a seguinte resposta: “Compreendo seu argumento de que o autor é a maior autoridade sobre sua obra, mas nós exigimos fontes secundárias”.

Indignado com a resposta, Roth escreveu uma carta aberta à Wikipédia no blog “Page-Turner”, da revista “The New Yorker”, expondo o problema. Isso repercutiu pela imprensa do mundo todo e mais uma vez trouxe à tona o problema da credibilidade da enciclopédia eletrônica colaborativa. Por fim, o verbete sobre o livro acabou incorporando a correção do escritor, porque agora já tem a referência externa – a carta aberta publicada – para citar. Mas não podia ter sido mais simples?

Você pode ler uma tradução da carta de Philip Roth no site do Observatório da Imprensa

Este parece ser mais um caso em que a regra, em vez de servir de parâmetro para o bom desenvolvimento do projeto, acaba por engessá-lo. A Wikipédia tem uma série de normas para edição, e isto é necessário já que se quer dar um conceito e uma unidade ao projeto. No entanto, essas diretrizes não devem ir de encontro ao bom senso. O que deve valer é o espírito da norma: as fontes secundárias são pedidas para confirmar a informação. No entanto, se o próprio autor de uma obra afirma que os dados estão errados, essa confirmação deixa de ser necessária. É óbvio.

A Wikipédia é um dos sites mais acessados em todo mundo e não há como negar sua utilidade como uma primeira fonte de consulta, devido em grande parte às referências externas que têm o potencial de ampliar e dar consistência à pesquisa. Porém, como um projeto de grande dimensão – só em português atualmente já são mais de 750 mil artigos – tem também muitos problemas. Há algum tempo eu escrevi aqui sobre a denúncia dos artistas que criaram a “Freakpedia – a verdadeira enciclopédia livre porque se sentiram censurados pelos administradores. Leia mais aqui.

De fato, a estrutura administrativa do projeto, um tanto hierarquizada, pode acabar criando problemas. É muito comum a queixa de colaboradores novatos sobre a reversão (ou retirada) de suas edições pelos administradores. É compreensível que seja necessário estabelecer normas para garantir a qualidade dos artigos, porém o difícil é conseguir fazer com que prevaleça o bom senso sobre a rigidez da obediência cega às regras.

Leia mais sobre o processo burocratização da Wikipédia no artigo “Don’t look now, but we’ve created a bureaucracy: the nature and roles of policies and rules in Wikipedia“.

E os problemas de credibilidade da Wikipédia não param por aí. Esta semana foi divulgado mais um caso envolvendo administradores do Reino Unido: “Corruption in Wikiland? Paid PR scandal erupts at Wikipedia”.

Por outro lado, a Wikipédia não é uma publicação pronta e fechada. Ao contrário, o projeto é um processo contínuo de produção colaborativa: os artigos estão sempre sendo modificados e atualizados. E também as próprias normas editoriais, em tese, não são fixas, isto é, podem ser modificadas pela comunidade de participantes. Sendo assim, espera-se que este embate ajude a expor o excesso de burocracia por parte dos administradores e contribua para aperfeiçoar seu sistema editorial.

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A evolução do modelo editorial distribuído do Overmundo

Neste post vou analisar brevemente o modelo editorial distribuído do Overmundo, no qual o público participante, formado por cerca de 40 mil colaboradores inscritos, não apenas produz o conteúdo, mas também define os destaques na sua página principal, através de voto.

O Overmundo é um dos mais bem-sucedidos projetos colaborativos na internet brasileira. Atualmente, de acordo com dados da AdPlanner, ferramenta da Google de mensuração de tráfico na Internet, o site tem em média 700 mil visitantes únicos por mês. O interessante é observar como esse modelo evoluiu, com avanços e recuos, num processo construído através de sua adequação à atuação da comunidade.

No início, cada contribuição deveria passar obrigatoriamente por duas filas, permanecendo em cada uma delas por 48 horas: a fila de edição, onde poderia receber comentários, sugestões e críticas, a partir das quais poderia ser aperfeiçoada; e pela fila de votação, na qual seria submetida à avaliação, através de votos dos demais membros registrados da comunidade. Somente aqueles que recebessem mais de 20 votos seriam publicados na parte mais visitada do website (página principal e páginas das seções overblog, banco de cultura, guia e agenda). Os demais teriam sua colaboração publicada apenas na área do perfil de seu autor, portanto, com quase nenhuma visibilidade. Já os mais votados obtinham destaque na primeira página, com status de matérias principais.

Nesta primeira fase, a votação funcionava da seguinte maneira: cada participante, depois de entrar com sua senha no sistema, tinha o direito de votar uma vez em cada contribuição e seu voto equivalia a um overponto (nome dado à unidade de pontuação do website). A soma dessa pontuação é que definia a relevância ou não da contribuição, tanto para ser publicada como para ser destacada na página principal. Este destaque, por sua vez, era modulado por um algoritmo que combinava os votos recebidos com o tempo em que o texto estava publicado no site: quanto mais votos, mais destaque; quanto mais tempo, menos destaque. Esta foi a maneira encontrada para garantir, por um lado, o destaque das mais votadas, por outro, a renovação constante do conteúdo.

Pouco tempo depois veio a novidade: a implantação de um sistema de reputação chamado karma, que media o nível de participação de cada um de acordo com algumas variáveis: o número de vezes em que votava em colaborações de outros; os votos que recebia em suas próprias colaborações; os comentários que fazia a outras contribuições etc. Esse monitoramento era revertido em pontos e premiava os mais atuantes dando-lhes maior poder dentro da comunidade. A proposta era mesmo a de se criar uma hierarquia, destacando os mais comprometidos com o projeto, que pudesse garantir uma maior qualificação e representatividade do conteúdo publicado. Uma validação coletiva e distribuída, na qual a atuação de alguns, mais dedicados, teria mais peso do que a da maioria.

Segundo esse sistema, o karma de cada integrante da comunidade poderia variar de 1 a 10, número que correspondia ao peso de seu voto. Por exemplo, um colaborador muito atuante, que tivesse karma 10, somaria 10 overpontos a cada voto. Já o voto de alguém menos atuante, com karma 1, representaria apenas um overponto. Deste modo, criou-se uma elite entre os participantes, com maior poder, ou autoridade, para definir a relevância das colaborações. Não há dúvida de que o critério escolhido para dar maior peso à atuação de alguns, por seu comprometimento com o projeto, é em tese bastante justo. No entanto, esse sistema, com um modus operandi muito similar a um jogo, acabou gerando problemas na comunidade. Muitos encararam o processo como um jogo competitivo, atuando muito mais para somar pontos do que para contribuir com a qualidade do conteúdo. Além disso, acentuou ainda mais a ação de panelinhas, grupos fechados que chegavam a dominar o processo editorial, fazendo com que suas colaborações fossem sempre as mais votadas, em detrimento da proposta editorial de se abrir espaço para a divulgação da diversidade da cultura brasileira – o objetivo do projeto.

Depois de três anos de existência, em abril de 2009, decidiu-se fazer uma série de mudanças no modelo de publicação do projeto, em resposta às solicitações da comunidade e também às dificuldades encontradas para administrá-lo nos moldes anteriores. Somado aos problemas da competição pelo karma e das panelinhas, havia a reclamação dos participantes em relação à demora da publicação dos textos, que tinham que aguardar por 96 horas, nas filas de votação e edição, algumas vezes correndo o risco de perder sua atualidade. Paralelamente, o próprio sistema de votação, se por um lado contribuía para destacar o conteúdo mais relevante, por outro acabava por excluir boa parte das contribuições, que não alcançavam a pontuação mínima exigida, ao jogá-las para a publicação apenas no perfil, com visibilidade praticamente zero.

Assim, desde então, o modelo editorial foi bastante simplificado. Todas as colaborações passaram ser publicadas imediatamente nas respectivas áreas editoriais (overblog, banco de cultura, guia e agenda), ou, opcionalmente, podem ir para a fila de edição, onde permanecem por 48 horas para receberem sugestões e críticas. As contribuições continuam recebendo votos, mas agora só com objetivo de dar destaque na interface aos mais votados. O sistema de karma acabou e a pontuação voltou ao modelo inicial: o voto de todos os participantes passou a ter o mesmo peso, isto é, um. Segundo a equipe que administra o projeto, o objetivo das mudanças foi garantir, e privilegiar, a fruição das colaborações e a interação criativa em torno delas.

Este relato é interessante pois possibilita ver como se deu a dinâmica entre a proposta inicial de um projeto editorial colaborativo e distribuído e sua adequação à reação da comunidade. A atuação dos participantes foi indicando os melhores caminhos a seguir e, paralelamente, seus conflitos obrigaram a fazer ajustes para não se perder de vista o objetivo principal que, neste caso, é a divulgação da cultura brasileira. Sendo assim, optou-se por um filtro inicial muito mais frouxo: todas as colaborações são publicadas. No novo modelo, a qualificação do conteúdo, em tese, diminui, pois tudo se iguala na medida em que não há mais o corte de entrada. No entanto, ainda é possível dar relevância, separar o joio do trigo, oferecendo destaque na interface aos mais votados. Se o modelo do karma, apesar de bem intencionado, não apresentou os resultados esperados, seja por não garantir a qualidade do conteúdo, seja por gerar muitos conflitos na comunidade, a decisão de eliminá-lo parece ter sido acertada. E, por outro lado, se o objetivo maior do projeto é assegurar a ampla divulgação da produção cultural brasileira, o modelo atual, mais aberto, é também mais democrático, podendo atender melhor ao seu propósito.

É louvável ver a inteligência e flexibilidade da equipe por trás do projeto, que não se acomodou frente às dificuldade, ao contrário, foi operando mudanças buscando alcançar seu objetivo e, ao mesmo tempo, investindo na evolução de um modelo editorial realmente colaborativo.

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Autoria e autoridade – ou quem autoriza a produção discursiva?

Em minha pesquisa, tenho estudado a autoria como uma construção histórica que varia em diferentes contextos e épocas. O ponto que tenho me dedicado agora é a investigação de como se dá a relação entre a autoria e a autoridade. Partindo do conceito de função autor, proposto por Foucault, eu penso a autoria como aquilo que dá forma ao discurso, determina sua existência e circulação. E autoridade seria então aquilo que em diversos momentos históricos deu validou esse discurso.

Se desde a Modernidade, essa validação passa de forma hegemônica pela figura do autor, por seu talento ou especialidade, em outros períodos havia outras formas de chancela cultural, que de algum modo tinham um caráter mais coletivo.

Na Antiguidade, havia a figura das musas. A criação poética era mais fluida. Cada recitador, ou bardo, ao mesmo tempo em que declamava também criava, inserindo sempre algo de seu, que posteriormente poderia ser apropriado por outros, num processo aberto e contínuo. Sua performance era reconhecida por sua força expressiva, mas aquilo que somava à criação poética não era visto como fruto de sua individualidade.

Para além do poeta, havia a representação simbólica, à qual ele deveria se submeter, ou seguir, a fim de ter sua produção artística reconhecida como tal. E esta tradição cultural manifestava-se da figura mítica das musas, filhas de Zeus, que era responsável por dar consistência às criações, assegurando que a composição, mesmo que coletiva ou improvisada, era parte da cultura vigente.

Já na Idade Média havia a auctoritas que representava a mediação entre a fonte divina e o humano. Formada por clérigos, que se dedicavam ao estudo hermenêutico da Bíblia, era um coletivo hierarquizado responsável pelo estabelecimento de uma doutrina que determinava o valor da produção textual. Assim, a expressão individual estava sempre subordinada à avaliação deste cânone, reconhecido como o legítimo porta-voz do saber divino, para ser referendada e aceita como algo digno de atenção. A auctoritas era a própria representação da autoridade de Deus na terra, daí seu poder de validar ou vetar a produção discursiva. Vale lembrar que naquela época Deus era a fonte da inspiração suprema para todas as obras, o seu verdadeiro autor.

Um importante abalo na forma de produção e validação dos textos se dá com a chegada da Modernidade, quando surgem as condições culturais que tornam possível a consolidação da autoria como um processo centrado no indivíduo. É importante observar que a Modernidade foi também a era do projeto do sujeito autônomo. O conhecimento sofre deslocamento sob essa nova conjuntura, passando a orbitar em torno do sujeito. E também a era da ascensão da razão como parâmetro para o conhecimento. Neste contexto, a figura do autor como um indivíduo criador é fortalecida.

Com o Romantismo o entendimento da autoria como um atributo individual é ainda mais radicalizado. Nesse período, o autor deixa de ser visto como um artesão movido por uma inspiração transcendental para ganhar um outro patamar: o de gênio criador. Nessa época, mais do que em qualquer outra, foi afirmado o valor do talento individual como o fator determinante do processo criativo e também de sua validação.

Depois disso, ainda no século XIX, a concepção do autor individual e autônomo começa a ser deslocada sob o impacto de significativos abalos sofridos nos discursos do conhecimento moderno. Esse deslocamento atinge seu ápice com os pensadores do pós-estruturalismo, que irão inverter o entendimento do processo autoral, priorizando o discurso ou a linguagem em detrimento do sujeito, este último por si só, para eles, uma categoria já sob suspeição.

No entanto, mesmo com o questionamento da natureza subjetiva da autoria, a produção textual continuou baseada, de forma hegemônica, na criação individual e na análise do autor e sua obra, com ênfase ainda na assinatura do especialista ou do escritor como fatores de qualificação dos textos. Do ponto de vista da validação da obra, importava ainda saber quem escreveu e quais são suas credenciais, científicas ou artísticas, para chancelar determinada produção.

Eu aprofundei esta parte teórica da história das relações entre autoria e autoridade no artigo que vou apresentar esta semana no IV Simpósio da ABCiber.

Na atualidade, um importante deslocamento vem sendo observado nos processos autorais nos meios digitais, cada vez mais marcados por uma ação colaborativa entre múltiplos agentes criativos. O lugar anteriormente ocupado pelo especialista ou pelo gênio criador, cuja assinatura era já sinônimo de valor, é apropriado por uma multidão de atores sociais distribuídos em rede que criam coletivamente os mais diferentes tipos de publicações como jornais, blogs e enciclopédias.

Neste contexto novos sistemas de validação vem sendo criados, de forma a dar qualidade aos textos e separar a informação relevante do ruído. Já tivemos oportunidade de estudar o sistema de validação distribuída do website Slashdot , um dos pioneiros na implantação de modelos de qualificação de conteúdo baseados na avaliação do público leitor participante. Seu modelo serviu de inspiração para muitos outros projetos, como o americano Digg e o brasileiro Overmundo , ambos baseados em sistemas de pontuação que organizam e valorizam, de forma distribuída, as matérias publicadas.

E existe ainda o modelo de validação empregado pela Wikipédia, mais centralizado. Analisei alguns pontos neste post.

Daqui a alguns dias vou postar a análise sobre o modelo de validação do Overmundo, que passou por algumas mudanças desde a sua criação, e por isso mesmo é um caso bem interessante pra se pensar sobre os problemas da implantação de sistemas distribuídos de qualificação de conteúdo.

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