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Autoria colaborativa e validação textual: o caso Wikipédia

Acaba de ser publicado meu artigo “Autoria colaborativa e validação textual: o caso Wikipédia”, na Contemporânea – Revista de Comunicação e Cultura do PósCom/UFBA. O texto aborda as mudanças nas formas de validação em publicações na rede, tendo como objeto de estudo a enciclopédia eletrônica colaborativa.

Wikipedia

Segue o resumo do artigo:

“O processo autoral da Wikipédia, aberto e colaborativo, abala o modelo tradicional de produção e validação textual, baseado nas credenciais do especialista ou do escritor renomado. A fim de explorar este fenômeno, este artigo parte da premissa de que a autoria e a autorização do texto são construções históricas que variam em diferentes épocas e constituições culturais. Num primeiro momento, é feito um breve percurso por esses deslocamentos, desde a Antiguidade até o período moderno, pontuando algumas de suas inflexões. Em seguida, é analisado o modelo editorial da enciclopédia eletrônica, estruturado em um sofisticado sistema sociotécnico que, diferentemente de outras publicações colaborativas presentes na rede, tende à centralização. Por último, é apresentado um estudo de caso do verbete Faixa de Gaza da Wikipédia Lusófona, no qual pôde ser observada a dinâmica de interação entre os colaboradores.”

Para lê-lo na íntegra, clique aqui.

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Tecnologias da cooperação

Uma das vertentes de minhas pesquisas, desde o mestrado, é o estudo das tecnologias de cooperação, isto é, dos instrumentos que têm sido criados para gerenciar a qualidade nos ambientes colaborativos.

Tenho trocado ideias sobre este tema com o Carlos Nepomuceno, jornalista e consultor especializado em estratégia no mundo digital. Assim como eu, ele está interessado em pensar a nova dinâmica da comunicação distribuída e as formas de administrar as interações em rede.

Conheça o blog do Nepô.

Na última sexta-feira, dia 7 de junho, eu participei do hangout que ele promove regularmente. Conversamos sobre vários tópicos, passando pelas tecnologias de cooperação e por meus estudos sobre o website Slashdot, a Wikipédia e a autoria em rede, entre outros assuntos.

Quem tiver curiosidade, pode conferir aqui o vídeo da conversa:

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Interação e coletividade marcam autoria em tempos de Internet

A Agência USP publicou uma boa matéria sobre a minha tese, no último dia 23. Embora, claro, não aborde todo o conteúdo da pesquisa, o texto faz um bom resumo do estudo. Reproduzo aqui matéria escrita por Bruna Romão

Controle e avaliação ainda são critérios importantes na autoria em rede

O ambiente digital da internet tem permitido cada vez mais a participação de usuários na construção de conteúdos, seja por intervenções diretas, como na enciclopédia virtual colaborativa Wikipédia, ou por diálogos no espaço reservado a comentários em blogs ou sites de notícias. Marcada pela coletividade, porém, essa nova forma de escrita não deixa de lado a relevância do autor. “Nesse novo padrão autoral interativo, o crédito pela autoria continua muito importante”, explica a jornalista Beatriz Cintra Martins, responsável por uma pesquisa da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP que estudou os aspectos envolvidos nesses processos autorais interativos de escrita na rede mundial de computadores. A tese de doutorado Autoria em rede : um estudo dos processos autorais interativos de escrita nas redes de comunicação foi defendida em março de 2012 e contou com a orientação do professor Artur Matuck, da ECA.

A partir do estudo, foram identificadas duas formas de escrita em rede, tipificados pela pesquisadora. Em primeiro lugar, haveria a autoria interativa colaborativa, em que as pessoas podem interagir diretamente com os textos. “Aquele texto é feito de forma realmente compartilhada e coletiva e será resultado de várias intervenções de forma colaborativa”, relata Beatriz. Esta categoria corresponde às interações que acontecem na enciclopédia virtual Wikipédia, por exemplo, e outros websites que partem do mesmo princípio colaborativo, as plataformas wiki.
O segundo tipo de autoria é denominado dialógico e se refere especialmente à relação encontrada em blogs, em que um texto principal tem novas observações agregadas a si em função de comentários dos leitores. “O texto principal está publicado e não é alterado. Mas por meio dos comentários são acrescentadas novas informações”, comenta a jornalista.

Antes de chegar a essas conclusões, a pesquisadora observou e realizou pesquisas empíricas com a Wikipédia, estudando o histórico do verbete Faixa de Gaza e contribuindo para as páginas Jogos Olímpicos de Verão de 2016, Direito Autoral e Creative Commons, bem como analisou o website Overmundo, em que os próprios usuários produzem notícias sobre cultura brasileira, nas quais há espaço para comentários e avaliações de outros internautas. Também fizeram parte do estudo a criação de um blog chamado Autoria em rede, que permitiu interação e diálogo com o público, além de maior divulgação da pesquisa, e um experimento wiki, em que uma plataforma aberta foi disponibilizada ao público do site, permitindo-lhes contribuir para um artigo sobre Autoria em rede.

A autoria ontem e hoje

O trabalho também reuniu dados de pesquisa histórica sobre a variação da produção e atribuição de textos desde a antiguidade até os dias atuais. Apesar de aparentemente inovadora, a concepção coletiva de autoria já existia durante a Antiguidade Clássica e a Idade Média. É durante o período moderno, apenas, que surge e se fortalece a noção de autoria e criatividade ligadas diretamente à subjetividade. “A própria modernidade traz um projeto de um sujeito autônomo”, ressalta Beatriz.

A autoria em rede não é apenas reflexo de avanços da tecnologia e da internet, mas, especialmente, resultado de um processo de questionamento da concepção de autor individual e autônomo iniciado ainda no século XIX, com apogeu na segunda metade do século XX. Embora deslocada e dissolvida, ela ainda carrega reflexos da concepção moderna: reputação e credibilidade continuam importantes. Para administrar essas questões, a comunidade virtual cria suas próprias ferramentas de controle e avaliação.

Validação de conteúdo

O website Overmundo e uma infinidade de sites e blogs utilizam um sistema distribuído para validação de conteúdo, em que os usuários tem a possibilidade de aprovar ou não os textos, atribuindo-lhes notas, estrelas ou likes. Esse modelo, que pode ser chamado de rankeamento, é comum inclusive em sites de compra online, como o E-bay. “São maneiras que estão sendo criadas para substituir o modelo tradicional em que essa avaliação passava pelo crivo de especialistas”, comenta a jornalista.

Já no caso da Wikipédia, explica Beatriz, a avaliação é mais centralizada. Existe uma série de regras que os contribuintes devem seguir para que o conteúdo acrescentado por eles seja mantido nos verbetes, como, por exemplo, citar as fontes das informações incluídas.

Em seu sistema de validação e fiscalização estão envolvidos usuários com maiores privilégios e até mesmo softwares que revisam e editam os conteúdos. “Uma grande parte das edições é feita por robôs. E também há robôs que inserem textos na Wikipédia a partir de bancos de dados abertos”, conta. Ao todo, mais de 20% do total de edições do site é feita por robôs. Não é incomum, relata Beatriz, em função desse modelo centralizado de validação, que ocorram as chamadas “Guerras de Edição”, entre novos usuários, com menos prática e reputação, e verificadores de conteúdo.
A reputação dos colaboradores também é levada a sério na “enciclopédia livre”. Apesar de ser possível a edição anônima, os colaboradores identificados e com o maior número de contribuições reconhecidas ganham maior poder, constituindo-se em administradores supervisores do projeto.

A comunidade em rede encontrou, ainda, outras maneiras de reconhecer e creditar autores. “Uma referência é o movimento software livre, que conseguiu consolidar um modelo produtivo interativo, cooperativo e baseado na reputação”, lembra a pesquisadora. Um dos exemplos mais famosos desse modelo é o sistema operacional Linux, para o qual centenas de programadores colaboram voluntariamente e são identificados no pedaço do código que aperfeiçoaram no programa. A jornalista cita também a rede social de microblogs, Twitter, em que o retweet, réplica da postagem de outra pessoa, constitui-se em uma forma de dar referência à fonte da informação.

Link da matéria na Agência USP

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A credibilidade da Wikipédia, mais uma vez, em xeque

Alguém pode ser mais gabaritado para falar da inspiração de uma obra do que o seu próprio autor? Pois a Wikipédia acha que não. Este foi o cerne de uma briga que envolveu recentemente o escritor norte-americano Philip Roth e um administrador da Wikipédia em língua inglesa. Ao pedir a correção de uma informação sobre em quem teria sido baseado o seu livro “A marca humana”, Roth recebeu a seguinte resposta: “Compreendo seu argumento de que o autor é a maior autoridade sobre sua obra, mas nós exigimos fontes secundárias”.

Indignado com a resposta, Roth escreveu uma carta aberta à Wikipédia no blog “Page-Turner”, da revista “The New Yorker”, expondo o problema. Isso repercutiu pela imprensa do mundo todo e mais uma vez trouxe à tona o problema da credibilidade da enciclopédia eletrônica colaborativa. Por fim, o verbete sobre o livro acabou incorporando a correção do escritor, porque agora já tem a referência externa – a carta aberta publicada – para citar. Mas não podia ter sido mais simples?

Você pode ler uma tradução da carta de Philip Roth no site do Observatório da Imprensa

Este parece ser mais um caso em que a regra, em vez de servir de parâmetro para o bom desenvolvimento do projeto, acaba por engessá-lo. A Wikipédia tem uma série de normas para edição, e isto é necessário já que se quer dar um conceito e uma unidade ao projeto. No entanto, essas diretrizes não devem ir de encontro ao bom senso. O que deve valer é o espírito da norma: as fontes secundárias são pedidas para confirmar a informação. No entanto, se o próprio autor de uma obra afirma que os dados estão errados, essa confirmação deixa de ser necessária. É óbvio.

A Wikipédia é um dos sites mais acessados em todo mundo e não há como negar sua utilidade como uma primeira fonte de consulta, devido em grande parte às referências externas que têm o potencial de ampliar e dar consistência à pesquisa. Porém, como um projeto de grande dimensão – só em português atualmente já são mais de 750 mil artigos – tem também muitos problemas. Há algum tempo eu escrevi aqui sobre a denúncia dos artistas que criaram a “Freakpedia – a verdadeira enciclopédia livre porque se sentiram censurados pelos administradores. Leia mais aqui.

De fato, a estrutura administrativa do projeto, um tanto hierarquizada, pode acabar criando problemas. É muito comum a queixa de colaboradores novatos sobre a reversão (ou retirada) de suas edições pelos administradores. É compreensível que seja necessário estabelecer normas para garantir a qualidade dos artigos, porém o difícil é conseguir fazer com que prevaleça o bom senso sobre a rigidez da obediência cega às regras.

Leia mais sobre o processo burocratização da Wikipédia no artigo “Don’t look now, but we’ve created a bureaucracy: the nature and roles of policies and rules in Wikipedia“.

E os problemas de credibilidade da Wikipédia não param por aí. Esta semana foi divulgado mais um caso envolvendo administradores do Reino Unido: “Corruption in Wikiland? Paid PR scandal erupts at Wikipedia”.

Por outro lado, a Wikipédia não é uma publicação pronta e fechada. Ao contrário, o projeto é um processo contínuo de produção colaborativa: os artigos estão sempre sendo modificados e atualizados. E também as próprias normas editoriais, em tese, não são fixas, isto é, podem ser modificadas pela comunidade de participantes. Sendo assim, espera-se que este embate ajude a expor o excesso de burocracia por parte dos administradores e contribua para aperfeiçoar seu sistema editorial.

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Pensando a autoria ciborgue

Um dos temas que abordo na minha tese é o da participação de softwares em processos autorais. Já tratei deste tema em outros posts, como você pode conferir aqui e aqui. Este tópico se tornou relevante na minha pesquisa especialmente porque na Wikipédia, um dos meus objetos de estudo, nada menos do que 22,4% das edições dos verbetes são feitas por robôs. Daí vem à tona a questão: afinal, os computadores podem ser considerados autores?

Esse fenômeno, que tenho chamado de autoria maquínica, está cada vez mais presente em diversas áreas. Recentemente o jornal O Globo publicou um artigo de Pedro Doria, comentando a crescente participação de softwares no jornalismo. Como exemplo, é citado o caso do Los Angeles Times, que vem automatizando a escrita de matérias com o uso de um programa que extrai informações sobre crimes através de planilhas fornecidas pela polícia de acordo com alguns critérios de análise, e com base nisso redige textos de notícias. Depois de mencionar mais alguns casos de escrita automática em publicações jornalísticas, o artigo conclui que a atuação do software é limitada, não substitui o jornalista pois não é original ou capaz de construir argumentos instigantes, mas pode ajudar a escrever alguns trechos do conteúdo. Mesmo assim, admite, é uma novidade que causa desconforto…

Leia o artigo do Globo, Jornalismo em software, aqui.

É provável que esse desconforto se relacione com o fato de que temos a escrita, assim como a autoria, como algo de natureza subjetiva e acima de tudo essencialmente humana, uma noção herdada do Romantismo. E a máquina, por outro lado, é vista como exatamente o oposto desta natureza, algo vazio de uma interioridade, portanto, incapaz de criar.

É interessante pontuar que a própria escrita, uma primeira tecnologia da linguagem e prótese de memória, foi alvo de fortes objeções em seus primórdios. Sócrates percebia a escrita como uma grande perda em relação ao discurso oral, mais apropriado para manter o pensamento vivo. Além disso, denunciava a ameaça que essa tecnologia representava para a manutenção das funções da memória, que ficaria subutilizada e perderia sua potência na medida em que os registros fossem transferidos para o papel. Estas críticas são bastante semelhantes às feitas atualmente ao uso do computador.

Pode-se argumentar que o que é concebido como artificial muda com o passar do tempo e, deste modo, a tecnologia passa a ser vista como algo natural. Assim, num primeiro momento, a escrita foi encarada como um elemento estranho ao processo intelectual humano, capaz de prejudicá-lo ou limitá-lo. Hoje o computador ocupa esse lugar de questionamento, como um agente estranho que se interpõe entre o homem e sua criação, tornando-a menor. De fato, a produção partilhada homem-máquina coloca em questão o lugar anteriormente estabelecido do autor.

Mas, se paramos para observar com cuidado a forma como se dá esse processo autoral que inclui o agente maquínico, constatamos a existência de uma simbiose entre a atuação humana e a atuação do software. Num primeiro momento, é o autor humano que imagina um contexto e estabelece a arquitetura do projeto e as funções do programa. Numa segunda etapa, o computador entra com suas características operacionais – alta capacidade de processamento, velocidade e precisão – capazes de dar outra dimensão ao processo criativo porque torna possível a articulação de grande número de informações com rapidez e exatidão.

Para pensar esse processo autoral compartilhado entre o homem e o computador é preciso,antes de tudo, abandonar qualquer concepção do processo autoral como algo de natureza individual ou pessoal. Mais correto seria encarar cada agente autoral, ser humano ou máquina, como uma posição em um sistema de comunicação, em uma ação criativa que se dá em uma complexa interação humano cibernética. Como propõe Espen J. Asrseth, estamos diante de uma autoria ciborgue.

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Testando a Wikipédia

O ano está terminando e eu também estou finalizando a escrita da tese. O último capítulo é dedicado a estudos empíricos, um deles com a Wikipédia. Não vou esmiuçar aqui como foi a experiência – em breve termino a tese, e aí quem tiver interesse poderá conhecer os detalhes – mas apenas resumir o que foi feito e quais foram as minhas conclusões.

Primeiro eu escolhi alguns temas polêmicos para fazer edições e testar como seria a reação dos colaboradores mais antigos. Optei por este tipo de interferência porque eu havia lido alguns trabalhos que relatavam ocorrências de conflito entre colaboradores eventuais e os mais antigos que resultavam em reversões das edições. Eu comentei isso neste post. Fiz também um estudo do verbete “Faixa de Gaza” com a análise das edições desde a sua criação em 18 de fevereiro de 2004 até 16 de novembro de 2011.

O surpreendente para mim foi observar uma boa maleabilidade no processo editorial. As intervenções que fiz em alguns verbetes não foram revertidas, apesar de conterem afirmações potencialmente polêmicas. Em pelo menos um dos casos, o acréscimo que fiz foi claramente contrário ao texto do restante do artigo. Vale ressaltar que em todas as vezes eu segui as normas de edição, especialmente fornecendo referências de outras fontes reputadas, como matérias de jornais. Acredito que isso tenha dado mais consistência às intervenções que fiz. De toda maneira, pelos dados que havia coletado anteriormente, eu esperava que minhas edições sofressem algum tipo de cerceamento, o que não aconteceu.

No verbete Faixa de Gaza o resultado foi na mesma linha. Desta vez eu não fiz edições, mas apenas acompanhei através do histórico da página todo o processo de elaboração do conteúdo por mais de sete anos. Lendo a página de discussão, pude constatar que houve um grande debate em torno da inclusão, feita por um dos colaboradores, da afirmação de que a Faixa de Gaza poderia ser comparada a um campo de concentração. Inicialmente houve uma guerra de edições entre dois colaboradores, um incluindo e o outro retirando essa afirmação. Em seguida, entrou em campo um dos administradores e tornou a página protegida permitindo a edição só de administradores, e direcionando o debate para a página de discussão. Ali o debate esquentou, com o uso de argumentos e também de desqualificações de parte a parte, até que se chegou a um acordo, retirando a afirmação daquele verbete e incluindo-a na página sobre Bloqueio à Faixa de Gaza. Ficou evidente a atuação de um dos administradores no sentido de amainar os ânimos e encaminhar a questão para uma solução de consenso de forma equilibrada.

Por último, um evento que não fez parte do meu estudo, mas que me chamou a atenção, comprovou mais uma vez a abertura da Wikipédia para a livre expressão de seus colaboradores. Em 15 de dezembro último foi criado o verbete A Privataria Tucana, sobre o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., lançado recentemente, que ganhou grande repercussão nas redes sociais embora tenha sido ignorado pela grande imprensa do país. Pois bem, um dos colaboradores solicitou que o verbete fosse retirado da enciclopédia mais ou menos com os mesmos argumentos que a grande imprensa tem usado para não mencioná-lo – que não traz fato novo, que o jornalista teria sido indiciado pela Polícia Federal então não teria credibilidade (embora nem tenha sido comprovada sua culpa) etc. O caso foi à votação, o que também repercutiu pelas redes sociais como uma ameaça à liberdade de expressão, e o resultado foi que o verbete permaneceu publicado. Venceu a diversidade de opinião.

Por tudo isso, a conclusão que eu chego é que a Wikipédia é um projeto de dimensão extraordinária e que por isso é natural que tenha problemas. São muitas comunidades envolvidas, sem dúvida há disputas sobre as narrativas que serão dominantes nos verbetes, mas mesmo assim existe ainda uma boa margem de manobra, um grande espaço para a participação de novos colaboradores e inserção de narrativas alternativas. Também é fato que as edições devem seguir uma série de normas que nem sempre um colaborador eventual teve tempo de conhecer, o que pode explicar o grande número de reversões dessas colaborações. O estudo que fiz não teve a intenção de dar conta de toda a complexidade envolvida na publicação mas pretendeu testar algumas características e observar como se dá a dinâmica das interações. Mais detalhes, como falei, em breve na tese.

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A Wikipédia ainda pode ser chamada de enciclopédia livre?

Uma das principais questões relativas às publicações eletrônicas colaborativas diz respeito à forma pela qual seu conteúdo é avaliado, isto é, quais são os instrumentos empregados para destacar a qualidade no universo de contribuições recebidas. Enquanto Slashdot, Digg e Overmundo optam por sistemas de auto-valoração de seu conteúdo, a Wikipédia, um dos mais significativos projetos de autoria colaborativa da rede, se baseia em regras pré-estabelecidas e em sistemas fiscalizadores como forma de qualificar seus artigos.

Com o crescimento do projeto, esse modelo tem apresentado alguns problemas, o maior deles, uma grande tendência à centralização do processo editorial. A relação entre usuários e administradores na Wikipédia Lusófona confirma isso: atualmente são 35 administradores para 781.999 usuários registrados. O problema é reforçado pela relação tensa entre veteranos, em especial administradores, e usuários novatos, um dos principais conflitos observados na comunidade. Os que chegam muitas vezes são surpreendidos por reversões de suas contribuições e até punições, sem que entendam direito o que fizeram de errado. E os veteranos muitas vezes se ocupam muito mais em participar de discussões e disputas do que em produzir algo relevante para a publicação.

Todos podem editar a Wikipédia, a questão é conseguir fazer com que suas contribuições não sejam eliminadas. E esta habilidade parece estar relacionada ao status de cada editor na comunidade. De acordo com pesquisa coordenada por Edi H Chi, do grupo Augmented Social Cognition de Palo Alto Researcher Center, as chances de um editor de elite ter sua colaboração revertida são de 1%. Já para aqueles que fazem de uma a nove edições por mês este número sobe para 15%, e para os que fazem apenas uma edição no mês, o índice chega a 25%. Ou seja, um quarto das contribuições de editores eventuais é descartado. Pode-se argumentar que os mais antigos estão mais afinados com as normas da publicação e que os novatos ou colaboradores eventuais erram mais. Só uma pesquisa empírica poderá esclarecer até que ponto as reversões são justas, no entanto o conjunto das informações aponta mesmo para uma significativa centralização do processo editorial.

O que observamos é a emergência de uma elite editorial, não mais baseada nos requisitos da especialização ou do talento, mas formada a partir de critérios que levam em conta o tempo de dedicação ao projeto e a quantidade de contribuições oferecidas. Se por um lado o critério é justo, pois valoriza aquele que mais trabalhou pelo projeto, por outro lado apresenta certa fragilidade, pois dá margem disputas entre veteranos e novatos nas quais nem sempre há muita clareza sobre o mérito de quem vence – quando, por exemplo, as colaborações são revertidas sem maiores explicações – fazendo com que muitos desistam de participar da publicação.

Por último, vale a pena mencionar também a própria concepção de valor enciclopédico na qual se baseia o projeto. Entre as regras de edição da Wikipédia Lusófona há o conceito de notoriedade, como um dos critérios para a relevância de um verbete, que “é diferente do conceito de fama, importância ou popularidade, embora estes possam ter uma correlação positiva com a notoriedade”. Esses critérios são debatidos entre a comunidade até se chegar à definição de uma norma. No momento, os parâmetros para algumas áreas já estão definidos, enquanto outros ainda estão sendo discutidos. Já foi definido, por exemplo, que todas as novelas são notórias, mas apenas os filmes longa metragem que tenham enredo (?) e sejam citados em uma publicação fiável têm notoriedade. Em relação a obras artísticas em geral, valem as já consagradas ou largamente estudadas. As recentes devem ser consideradas não apenas em relação a sua publicação, mas também pela análise em publicações respeitadas, assim como por sua repercussão.

É certo que a enciclopédia pode estabelecer critérios a fim de definir uma linha editorial. O que se percebe é que da forma como estão definidos, esses critérios valorizam o que já está reconhecido socialmente, e fecham espaço para o novo que muitas vezes mereceria ser incluído por sua importância. Numa lógica oposta à horizontalidade da rede, observa-se por exemplo que os temas da cultura de massa, muitas vezes efêmeros, são plenamente contemplados e que, no entanto, as produções independentes tendem a ser rejeitadas. Como exemplo, citamos o caso dos artistas Edgar Franco e Fábio Oliveira Nunes, que tiveram verbetes sobre suas obras retirados da publicação, em 2007, com a justificativa de que não possuíam relevância. Indignados, eles então criaram o projeto Freakpedia, como a verdadeira enciclopédia livre, onde qualquer assunto pode virar verbete, em um protesto contra o que consideram uma “lógica excludente, maximizada pelo desconhecimento dos assuntos tratados”.

Analisamos aqui, de forma breve, alguns problemas do modelo de validação de conteúdo da Wikipédia. O que observamos é uma tendência à centralização nas decisões o que é oposto a sua proposta autoral, supostamente, aberta e distribuída. Esta contradição tem consequências para a proposta original do projeto, na medida em que muitas contribuições são revertidas, não chegando portanto a fazer parte da obra, a não ser por algumas horas. É compreensível que, com o grande crescimento do projeto, seu sistema de qualificação deveria ser aperfeiçoado a fim de combater o vandalismo e o spam. No entanto, nos parece que as medidas implementadas, representadas por novas normas e critérios e no aumento do poder dos administradores, acabaram ferindo o conceito maior que regia o projeto quando foi criado: o de ser a enciclopédia livre.

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