Arquivo do mês: março 2011

Redes peer-to-peer fazem bem à criação

Mais um estudo foi divulgado com dados que colocam em xeque os argumentos da indústria cultural contra a livre distribuição de produtos culturais pela internet através de redes peer-to-peer, como LimeWire ou BitTorrent. (No post anterior, eu escrevo sobre outro argumento que foi derrubado – o da ligação entre pirataria e organizações criminosas.)

Um desses argumentos é que a falta de cobrança de direitos autorais sobre a circulação da música teria como efeito uma queda na geração de novas produções, pois afetaria toda a cadeia produtiva. Por exemplo a RIAA, associação da indústria fonográfica norte-americana, talvez a maior adversária institucional das redes de compartilhamento de arquivos, declara que “Nosso objetivo com esses esforços anti-pirataria é proteger a capacidade da indústria fonográfica de investir em novas bandas e novas músicas…”.

No entanto, a pesquisa de Joel Waldfogel, da Universidade de Minnesota, concluiu que o número de lançamentos de novos álbuns e de novos artistas não diminuiu após a disseminação das redes peer-to-peer, mesmo que a indústria tenha registrado grande redução nas vendas.

Entre as razões para a chegada de novas produções ao mercado, o estudo aponta a diminuição de custos proporcionada pelas tecnologias digitais, tanto na produção como na promoção e distribuição.

Se antes um artista tinha que passar pelo filtro dos executivos da indústria fonográfica para ter a chance de levar seu trabalho ao grande público, hoje ele pode fazer isso com um equipamento doméstico de baixo custo. Colocar suas músicas no MySpace e Youtube, promover nas redes sociais – deixar que circulem nas redes de compartilhamento – e assim conquistar o seu espaço.

Da mesma maneira, o rádio não é mais o responsável pela divulgação de novas músicas. Atualmente nos EUA, de acordo com outro estudo, a internet é a principal fonte para a descoberta de novos artistas e músicos por consumidores na idade entre 12 e 34 anos.

Outra constatação é a relevância de selos independentes nesses lançamentos, já que não precisam de um retorno tão alto nas vendas para ter lucro, e por isso estão mais abertos para explorar e investir nas novidades.

Esta pesquisa vai na mesma direção de outras investigações que demonstram que está havendo uma grande transformação na forma como os bens culturais são produzidos e distribuídos na era das redes de comunicação. Enquanto novos modelos de remuneração do artista são criados, as antigas formas de proteção da propriedade intelectual e de controle da circulação de cópias estão sendo desestabilizadas.

São tempos de mudança, profunda e irrefreável. A indústria resiste, quer manter o modelo de lucro através da venda de cópias, já ultrapassado pela tecnologia e pelas práticas sociais. Criminalizar grande parte da população mundial pela forma como consomem cultura não parece ser a forma mais inteligente de enfrentar esse desafio.

Leia o artigo sobre a pesquisa – Bye, Bye, Miss American Pie? The Supply of New Recorded Music since Napster

Também relacionada ao assunto, vale ler a matéria do Estadão – Atlas mundial da Pirataria

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Estudo conclui que alto preço é a principal causa da pirataria

Foi divulgada esta semana uma pesquisa sobre a pirataria de produtos digitais em países emergentes, abordando os casos do Brasil, Índia, Rússia, África do Sul, México e Bolívia. De acordo com o estudo, a maior causa da disseminação desse tipo de comércio é o preço praticado nesses países, de cinco a dez vezes mais caro do que nos EUA ou na Europa. O que, por outro lado, é consequência da falta de competição nesses mercados, dominados pelas grandes empresas globais.

A investigação conclui ainda que as campanhas anti-pirataria nesses países têm fracassado por tentarem camuflar essa realidade, ligando o comércio de cópias ilegais a crimes de outra natureza. Há algum tempo, por exemplo, havia uma campanha no Brasil que relacionava os DVDs piratas ao tráfico de drogas(!). Mas isso nunca foi confirmado oficialmente.

Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Overmundo, foi um dos coordenadores do estudo de 426 páginas, das quais 80 são dedicadas ao Brasil. Em matéria publicada pelo jornal O Globo, ele comenta que os números divulgados nessas campanhas também não são reais. Diz-se, por exemplo, que o Brasil perde dois milhões de empregos e que deixa de recolher em impostos R$ 30 bilhões por ano por causa da pirataria. Os pesquisadores buscaram as fontes desses números e constataram que elas não existem: os valores simplesmente foram inventados!

Por fim, a pesquisa chega a uma conclusão interessante, que vem ao encontro de tudo o que tenho escrito aqui no blog: é mais fácil mudar as leis do que transformar as práticas. Através de um lobby pesado, a indústria cultural tem obtido sucesso em tornar a legislação de proteção à propriedade intelectual cada vez mais restritiva. No entanto, não tem conseguido fazer com que ela seja efetivamente aplicada pelos governos. Isso porque os modos de circulação dos bens culturais na sociedade mudaram, se tornaram muito mais rápidos, baratos e propícios ao compartilhamento.

Mais inteligente seria se adaptar a esse modelo, criando novas formas de remuneração que estejam de acordo com os custos envolvidos. Não se pode querer cobrar preços exorbitantes para cópias digitais cuja reprodução é extremamente barata.

Conheça a pesquisa na íntegra em piracy.ssrc.org

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De malas prontas, rumo ao Porto

Estou terminando as providências para embarcar rumo à cidade do Porto, em Portugal, onde vou fazer um Estágio de Doutorando na Universidade Fernando Pessoa, de março até o final de junho.

Meu orientador será o professor Rui Torres, pesquisador da linguagem da hipermídia e autor de obras de escrita digital criativa, como o “Poemário, a sua máquina de sonhar”, que já citei em outro post. Mais sobre o seu trabalho em Telepoesis.net.

Lá pretendo desenvolver o capítulo de minha tese mais ligado ao estudo da linguagem hipertextual. Especialmente quero pensar o papel das interfaces e dos softwares na geração de textos na Internet.

Se a possibilidade de cooperação interativa das tecnologias digitais desloca a noção que se tem sobre a autoria como algo individual, a participação do computador na criação de um discurso desestabiliza de vez essa noção porque coloca em cena um novo agente autoral: a própria máquina.

Como entender isso? Como pensar teoricamente a autoria maquínica? Em que medida a plataforma computacional pode determinar um discurso? É possível encontrar filiações históricas que permitam considerar essa escrita generativa como remediação de práticas de escrita anteriores? Estas são algumas questões que planejo explorar por lá.

Talvez eu demore um pouco mais do que de costume para atualizar o blog, pelo menos enquanto ainda estiver me instalando. Mas tão logo eu possa, voltarei a postar e a compartilhar minhas reflexões sobre os temas relacionados a minha pesquisa.

Até breve!

PS – Quem tiver boas dicas de Portugal, por favor compartilhe!

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