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O menino da Internet, documentário-tributo a Aaron Swartz

Leis injustas existem; devemos nos contentar em obedecê-las, ou devemos esforçar-nos em consertá-las, e enquanto não conseguimos, obedecê-las, ou devemos transgredi-las de uma vez por todas?
Henry Thoreau

Estas palavras, que dizem muito da disputa atual pelo modelo de circulação dos bens intelectuais em nossa sociedade, abrem o documentário “The Internet’s Own Boy: The Story of Aaron Swartz”.

Sua trajetória ativista retrata a luta entre o direito de acesso ao conhecimento e à cultura versus o recrudescimento da propriedade intelectual.

Desde muito novo, Aaron participou de algumas das grandes invenções da internet, como o recurso RSS, a especificação das licenças Creative Commons e o site Reddit.

Ainda muito cedo, optou por deixar o mundo das startups e do dinheiro rápido para ficar ao lado de gente como Tim Berners-Lee, em prol da rede livre. Berners-Lee, para quem não sabe, criou a WWW e a disponibilizou de graça para a humanidade, tornando possível a criação de um sem número de inovações e serviços sobre a plataforma, algo que seria muito mais limitado se ela fosse proprietária.

Entre muitos projetos, Aaron criou o site OpenLibrary.org, uma biblioteca online aberta, onde é possível acessar e ler livros gratuitamente. Outra iniciativa de peso, que incomodou o governo norte-americano, foi disponibilizar gratuitamente 2,7 milhões de documentos da justiça federal do país que, apesar de serem dados públicos, tinham acesso restrito e cobrado. O FBI chegou a investigá-lo por esta iniciativa, mas não conseguiu base legal para processá-lo.

O ativista foi ainda peça fundamental na luta contra o projeto Stop Online Piracy Act (SOPA), que pretendia restringir a circulação de dados na rede e que acabou derrotado no congresso americano.

No final de 2010 e início de 2011, Aaron iniciou mais um projeto ambicioso: baixar uma grande quantidade de revistas e artigos científicas da plataforma JSTOR, usando a rede do MIT. Mesmo que ele nunca tenha disponibilizado os arquivos para terceiros, o FBI encontrou aí os fundamentos para processá-lo. E apesar de tanto o MIT quanto a JSTOR terem retirado a denúncia contra ele, o processo continuou e ele corria o risco de ser preso e ter que pagar uma multa de U$ 1 milhão.

O final da história, você já deve conhecer: Aaron não suportou a pressão e cometeu suicídio em 11 de janeiro de 2013. Um garoto brilhante, uma das lideranças da luta pelo conhecimento aberto e livre, acabou servindo de “exemplo” do que pode acontecer em solo norte-americano para quem ousa se contrapor às normas vigentes do capital. Mas, não, a luta ainda não acabou. Sabemos disso.

Vale assistir ao documentário, que conta em detalhes a sua história e nos inspira a continuar no front.

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Economia Peer-to-Peer

A dinâmica de produção do sistema operacional GNU/Linux pode se tornar modelo para outros setores da economia? As novas formas de produção distribuída e equipotencial entre pares estariam apontando para um sistema que vá além do capitalismo?

Michel Bauwens, criador da Peer-to-Peer Foundation, destaca algumas características desse modelo produtivo que representariam profundas mudanças no paradigma da economia capitalista e que poderiam apontar na direção de sua superação:

– a produção entre pares possibilita efetivamente a cooperação livre entre produtores;
– a autoridade entre pares transcende tanto a autoridade do mercado como a do estado;
– as novas formas de propriedade universal transcendem as limitações dos modelos de propriedade pública e privada na constituição de um patrimônio comum;
– o surgimento de uma nova ética do trabalho (Ética Hacker) e novas práticas culturais.

Já Yochai Benkler, outro importante pesquisador da produção P2P, enfatiza que as redes de comunicação tornaram possível a disseminação em larga escala de práticas colaborativas e solidárias que já existiam em escala menor na sociedade. Hoje você pode não só colaborar com uma iniciativa comunitária no seu bairro, mas também se engajar nos mais variados projetos nos quatro cantos do planeta. Dessa forma, então, iniciativas cooperativas têm ganhado força numa dimensão inédita.


Assista ao TED com Yochai Benkler sobre a nova economia de informação em rede

Os dois pesquisadores concordam que a emergência da produção P2P deriva em grande parte da disseminação das tecnologias de informação e comunicação. Como o capitalismo na atualidade é baseado no conhecimento que gera novo conhecimento (inovação) e o computador é o meio que permite tanto o acesso ao conhecimento produzido como a produção do novo conhecimento, pela primeira vez no sistema capitalista o capital fixo é acessível ao cidadão comum.

De fato, há hoje muitos exemplos de iniciativas P2P nas mais diversas áreas, que ilustram como a produção entre pares pode alcançar os mais diversos setores da economia: o projeto WikiHouse, um protótipo arquitetônico aberto que pode ser produzido em impressoras 3D para gerar moradias de baixo custo; ou WikiSpeed, um projeto de carro concebido em um modelo de produção open-source com a colaboração de mais de mil pessoas de 20 países diferentes; ou ainda o sistema de empréstimo P2P Zopa, que intermedia as operações entre as pessoas, possibilitando taxas mais atraentes para quem empresta e para quem toma emprestado.

No entanto, não se pode esquecer que, por outro lado, as formas de exploração da produção colaborativa se sofisticam ao mesmo tempo. As grandes empresas da atualidade fazem isso de forma explícita. A rentabilidade do Facebook , por exemplo, é baseada na colaboração de seus usuários que alimentam a plataforma de graça. Já o motor de busca Google retira valor de dados fornecidos voluntaria e gratuitamente por milhões de pessoas. Some-se a isso o fato de que essas duas grandes empresas são também as maiores alimentadoras dos sistemas de vigilância mundiais, monitorando toda a movimentação on-line e repassando esses dados para organizações governamentais e/ou outras empresas.

O que irá prevalecer? A potência da produção colaborativa entre pares que pode criar soluções para diversos impasses contemporâneos ou disposição da máquina capitalista em capturar a produção colaborativa para priorizar o lucro acima dos interesses coletivos? Está aí, de forma ultra sintética, a grande disputa contemporânea.

Estes foram alguns dos pontos abordados na aula Economia P2P: a produção colaborativa. Para quem se interessar, segue abaixo a apresentação com mais algumas referências:

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Us Now – documentário sobre P2P

Pesquisando a Economia P2P para a aula que darei no curso “Oito Temas para se pensar a Ciência, a Sociedade e as Redes na Era da Complexidade”, me deparei com o documentário “Us Now”, sobre como a colaboração em massa está transformando os mais variados setores da sociedade.

Os exemplos mostrados são variados: Mumsnet, plataforma na qual mães trocam orientações sobre os mais variados aspectos relativos à criação de seus filhos; Zopa, um banco de empréstimos P2P, com juros mais baixos e laços sociais mais fortes; Couchsurfing, que conecta pessoas que vão viajar com pessoas que podem recebê-las em suas casas, estimulando a troca cultural além do turismo; Ebbsfleet, um time de futebol britânico que deixa que seus torcedores decidam as estratégias do jogo etc.

A partir do caso do processo de decisão participativo experimentado pelo Ebbsfleet, o vídeo explora as possibilidades do emprego desse modelo de gestão na esfera governamental. O escritor e pesquisador Don Tapscott, um dos entrevistados, relata que o Partido Verde do Canadá utilizou a plataforma wiki, na qual os cidadãos puderam incluir sugestões, para desenvolver seu programa de governo colaborativamente.

Outro entrevistado é o professor Clay Shirky, que argumenta que as práticas sociais tradicionais, como ajudar uns aos outros ou fazer coisas juntos, ganharam nova dimensão com o advento da cultura digital, o que tem um extraordinário potencial, ainda muito pouco explorado.

A produção é de 2009 e tem legendas em português. Sabemos que de lá pra cá, o fenômeno da colaboração em massa só fez aumentar. Vale muito a pena assistir.

PS – Este é o primeiro post sobre o tema. Assim que a aula estiver montada, posto aqui os slides com as referências.

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WikiRebels – o documentário

Embora já um pouco antigo, do final de 2010, o documentário WikiRebels continua relevante. Produzido pela tv estatal sueca (SVT), conta os detalhes da história do Wikileaks, do seu surgimento até o início do controverso processo judicial contra seu líder Julian Assange.

O vídeo, com legendas em português, traz imagens fortes de assassinatos de civis no Iraque pelas forças armadas dos Estados Unidos, que lamentavelmente não foram devidamente investigados e punidos até hoje.

O mais importante, porém, é que as imagens e documentos vazados pela organização transformaram para sempre a relação de forças na chamada guerra da informação. O Wikileaks criou um sistema de vazamento de informações de interesse público, ao oferecer um caminho para que os cidadãos possam divulgar e denunciar atos governamentais que julguem ilícitos, que dificilmente será estancado. Edward Snowden, responsável por tornar público detalhes do sistema de vigilância global da NSA, que o diga.

Estranho mundo este em que se defende com tanto fervor a liberdade de expressão, mas onde três protagonistas dos principais vazamentos de dados de alto interesse público estão confinados: Chelsea Manning, soldado que forneceu arquivos secretos norte-americanos ao Wikileaks, foi sentenciada a 35 anos de prisão; Julian Assange está refugiado na Embaixada do Equador em Londres há mais de dois anos e meio; e Edward Snowden permanece em asilo político desde junho de 2013 na Rússia.

Liberdade de expressão para que e para quem? Falta responder…

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Sujeito a Termos e Condições

Privacidade e vigilância são questões críticas nos dias atuais. Não só para governos e organizações, mas também para pessoas comuns.

Edward Snowden revelou ao mundo o que alguns já sabiam: nossos dados pessoais estão cada vez mais expostos ao monitoramento, com objetivos especialmente comerciais e de segurança do estado. Já tratei deste assunto aqui e aqui.

Talvez o mais estranho é saber que, sem prestarmos muita atenção, grande parte desse monitoramento é feito com nossa concordância.

Explico: a cada vez que clicamos no botão “aceito” nos mais variados serviços e produtos, estamos na prática autorizando grandes empresas a “tomarem conta de nossos dados” da maneira que melhor lhes aprouver.

Serviços como Facebook, Google, Instagram, iTunes, LinkedIn etc. E produtos como softwares, computadores, tablets e smartphones. Todos sempre nos colocando diante de uma tela para concordarmos com normas e restrições. Como o texto é bem grande e a letra pequena, raramente alguém se dá ao trabalho de conferir. E não há saída: ou se aceita ou não se usa.

O documentário Sujeito a Termos e Condições explora as consequências desse ato tão corriqueiro e banal, mostrando como as corporações fazem uso das informações que têm acesso.

Ver como o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, trata os dados dos usuários e, paradoxalmente, reage à invasão de sua própria privacidade, já vale o filme.

É um tanto quanto preocupante saber dos detalhes por trás de um simples clicar em “aceito”. Mas sempre é melhor estar consciente do que estamos expostos para que tenhamos mais discernimento ao disponibilizar nossas informações.

Atualização em 26/03/2015: o post trazia o link do documentário no Vimeo, com legendas em português, mas infelizmente ele foi retirado… De toda forma, fica a dica pra quem quiser baixá-lo:

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Tudo é remix

Consegui recuperar o link de mais um vídeo muito interessante que tinha arquivado aqui no blog e que havia se perdido, como expliquei no post anterior.

O excelente “Everything is a remix” parte da tese de que a maioria da produção cultural da atualidade é uma recombinação ou reformatação de criações já existentes.

Uma das afirmações do documentário: “Dos 10 filmes de maior sucesso dos últimos 10 anos, 74 em 100 são continuações, refilmagens ou adaptações de livros, histórias em quadrinhos, videogames e etc”.

O projeto é dividido em quatro vídeos diferentes que abordam diversas áreas e aspectos da questão, começando pela música, passando pelo cinema e pelo desenvolvimento da interface do computador pessoal.

Além disso, também toca em pontos mais conceituais, como o próprio tema da autoria, do mito do gênio criador e da originalidade, e a iminente falência da noção de propriedade intelectual.

Mais informações e referências na página do projeto.

A boa notícia é que os vídeos, originalmente em inglês, foram legendados pelo pessoal do Baixa Cultura.

Vale conferir.

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A questão autoral em debate

Outro dia, provavelmente com um certo atraso, me dei conta de que a lista de vídeos que eu mantinha aqui no blog simplesmente deixou de existir. Era um recurso interessante, oferecido pelo recém extinto VodPod: permitia que eu criasse uma seleção de links de vídeos que ficava disponível como um arquivo de referências audiovisuais sobre a autoria em rede .

Pois bem, perdidos a lista e os links, resolvi aos poucos recuperá-los e inseri-los, agora na forma de posts. O primeiro deles é da mesa Autoria em Questão, que fez parte do Máquinas de Luz: 1º Fórum das Imagens Técnicas, organizado em comemoração aos 10 anos do Ateliê da Imagem, em 2009.

Em debate, diversos pontos de vista a respeito da questão autoral na contemporaneidade, abordados por Walter Carvalho, fotógrafo e diretor de cinema; Ivana Bentes, professora e diretora da ECO/UFRJ; Sergio Cohn, poeta e diretor da Azougue Editorial; com a mediação de Frederico Coelho, historiador e curador-assistente do MAM/RJ.

O vídeo é longo, pouco mais de duas horas, mas para quem se interessa pelo tema vale cada minuto.

E, a fim de facilitar futuras buscas, criei a tag “Vídeos” como uma forma de contornar a falta de um recurso para armazenar essas referências.

Máquinas de Luz: 1o. Fórum das Imagens Técnicas | Debate Autoria em Questão from Ateliê da Imagem on Vimeo.

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