O equívoco da Folha em restringir os comentários

A Folha de São Paulo acaba de tomar a decisão controversa de restringir os comentários na versão on-line do jornal. O resumo é: “Quer dar sua opinião à vontade? Então, pague.” Quer dizer, só os assinantes do jornal é que poderão comentar à vontade. Os eventuais visitantes podem comentar, mas seus comentários terão que passar por aprovação.

Leia a coluna de Suzana Singer, ombudsman da Folha, sobre a decisão.

Quem me chamou a atenção pra isso foi o Carlos Nepomuceno, que postou a discussão no Facebook e também escreveu no seu blog

Mais uma vez, vemos a dificuldade de empresas de comunicação (como o caso do Instagram, que abordei recentemente) em lidar com a produção em rede.

Suzana Singer argumenta que a decisão foi necessária porque no modelo antigo era impossível gerenciar a qualidade do conteúdo e controlar o que ia ao ar.

Esse é o maior equívoco: pretender controlar de modo unilateral a comunicação, pois na rede seu modus operandi é a interação. Quem lê quer também opinar, dialogar, debater. O que faz com o que mude significativamente o papel do jornal: não é mais somente uma publicação que divulga notícias, mas passa a ser um espaço público de discussão sobre os temas em pauta. E que tem que lidar de forma positiva com a produção dos leitores. Isto é, incorporá-los em sua dinâmica editorial.

Claro que há também muito ruído na comunicação em rede, como os trolls que só querem atrapalhar a discussão. Mas dá para filtrar, criar um ranking de acordo com a relevância, para dar mais qualidade ao conteúdo. E a melhor maneira de fazer isso é com a colaboração dos leitores.

Em minhas pesquisas de mestrado e doutorado, eu me dediquei também aos estudos empíricos de modelos de validação distribuída em interfaces colaborativas. Investiguei como foram criadas na prática soluções para qualificar grande quantidade de conteúdo de forma coletiva e distribuída.

Minha dissertação é sobre o Slashdot, que já foi definido como o avô dos blogs. Criado em 1997 por hackers e para a comunidade hacker, funciona como um fórum de discussão que recebe em cada tópico centenas de comentários.

Com tantas intervenções, não daria para uma pequena equipe dar conta de moderá-las. Por isso, eles criaram um sistema muito inteligente de moderação distribuída que destaca as mais interessantes e esconde os trolls. Tem um resumo do meu estudo neste artigo e o estudo completo na dissertação. Ou você pode visitar o Slashdot e conferir diretamente.

Outros sites se inspiraram nesse sistema pioneiro e criaram instrumentos para deixar que o próprio público avalie os comentários. As soluções encontradas são diversas como a do Huffington Post, que tem um sistema de moderação formada pela equipe da publicação e por colaboradores da comunidade de leitores. Vale conferir.

Já o inglês The Guardian, um dos jornais que melhor entende a lógica da Internet (chega a chamar os leitores para participar da apuração de uma notícia), tem uma interface pobre para os comentários, mas permite que sejam recomendados por outros leitores – o que acaba criando um índice de relevância que destaca o mais interessante.

Esse tipo de avaliação distribuída está presente em um sem número de iniciativas na rede. No Mercado Livre, por exemplo, você sabe que um vendedor é confiável pelas avaliações de outros compradores. Ou o aplicativo Taxibeat, um serviço de táxi no qual, da mesma forma, cada motorista tem um índice de acordo com a avaliação dos passageiros.

A ponto-chave é: a rede é interativa e distribuída, e a melhor forma de estar nela é incorporando essa dinâmica, em diálogo com seu público. Para quem não entender isso, a tendência é perder público e relevância.

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Arquivado em Jornalismo online, Linguagem Digital, Validação

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