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Interação e coletividade marcam autoria em tempos de Internet

A Agência USP publicou uma boa matéria sobre a minha tese, no último dia 23. Embora, claro, não aborde todo o conteúdo da pesquisa, o texto faz um bom resumo do estudo. Reproduzo aqui matéria escrita por Bruna Romão

Controle e avaliação ainda são critérios importantes na autoria em rede

O ambiente digital da internet tem permitido cada vez mais a participação de usuários na construção de conteúdos, seja por intervenções diretas, como na enciclopédia virtual colaborativa Wikipédia, ou por diálogos no espaço reservado a comentários em blogs ou sites de notícias. Marcada pela coletividade, porém, essa nova forma de escrita não deixa de lado a relevância do autor. “Nesse novo padrão autoral interativo, o crédito pela autoria continua muito importante”, explica a jornalista Beatriz Cintra Martins, responsável por uma pesquisa da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP que estudou os aspectos envolvidos nesses processos autorais interativos de escrita na rede mundial de computadores. A tese de doutorado Autoria em rede : um estudo dos processos autorais interativos de escrita nas redes de comunicação foi defendida em março de 2012 e contou com a orientação do professor Artur Matuck, da ECA.

A partir do estudo, foram identificadas duas formas de escrita em rede, tipificados pela pesquisadora. Em primeiro lugar, haveria a autoria interativa colaborativa, em que as pessoas podem interagir diretamente com os textos. “Aquele texto é feito de forma realmente compartilhada e coletiva e será resultado de várias intervenções de forma colaborativa”, relata Beatriz. Esta categoria corresponde às interações que acontecem na enciclopédia virtual Wikipédia, por exemplo, e outros websites que partem do mesmo princípio colaborativo, as plataformas wiki.
O segundo tipo de autoria é denominado dialógico e se refere especialmente à relação encontrada em blogs, em que um texto principal tem novas observações agregadas a si em função de comentários dos leitores. “O texto principal está publicado e não é alterado. Mas por meio dos comentários são acrescentadas novas informações”, comenta a jornalista.

Antes de chegar a essas conclusões, a pesquisadora observou e realizou pesquisas empíricas com a Wikipédia, estudando o histórico do verbete Faixa de Gaza e contribuindo para as páginas Jogos Olímpicos de Verão de 2016, Direito Autoral e Creative Commons, bem como analisou o website Overmundo, em que os próprios usuários produzem notícias sobre cultura brasileira, nas quais há espaço para comentários e avaliações de outros internautas. Também fizeram parte do estudo a criação de um blog chamado Autoria em rede, que permitiu interação e diálogo com o público, além de maior divulgação da pesquisa, e um experimento wiki, em que uma plataforma aberta foi disponibilizada ao público do site, permitindo-lhes contribuir para um artigo sobre Autoria em rede.

A autoria ontem e hoje

O trabalho também reuniu dados de pesquisa histórica sobre a variação da produção e atribuição de textos desde a antiguidade até os dias atuais. Apesar de aparentemente inovadora, a concepção coletiva de autoria já existia durante a Antiguidade Clássica e a Idade Média. É durante o período moderno, apenas, que surge e se fortalece a noção de autoria e criatividade ligadas diretamente à subjetividade. “A própria modernidade traz um projeto de um sujeito autônomo”, ressalta Beatriz.

A autoria em rede não é apenas reflexo de avanços da tecnologia e da internet, mas, especialmente, resultado de um processo de questionamento da concepção de autor individual e autônomo iniciado ainda no século XIX, com apogeu na segunda metade do século XX. Embora deslocada e dissolvida, ela ainda carrega reflexos da concepção moderna: reputação e credibilidade continuam importantes. Para administrar essas questões, a comunidade virtual cria suas próprias ferramentas de controle e avaliação.

Validação de conteúdo

O website Overmundo e uma infinidade de sites e blogs utilizam um sistema distribuído para validação de conteúdo, em que os usuários tem a possibilidade de aprovar ou não os textos, atribuindo-lhes notas, estrelas ou likes. Esse modelo, que pode ser chamado de rankeamento, é comum inclusive em sites de compra online, como o E-bay. “São maneiras que estão sendo criadas para substituir o modelo tradicional em que essa avaliação passava pelo crivo de especialistas”, comenta a jornalista.

Já no caso da Wikipédia, explica Beatriz, a avaliação é mais centralizada. Existe uma série de regras que os contribuintes devem seguir para que o conteúdo acrescentado por eles seja mantido nos verbetes, como, por exemplo, citar as fontes das informações incluídas.

Em seu sistema de validação e fiscalização estão envolvidos usuários com maiores privilégios e até mesmo softwares que revisam e editam os conteúdos. “Uma grande parte das edições é feita por robôs. E também há robôs que inserem textos na Wikipédia a partir de bancos de dados abertos”, conta. Ao todo, mais de 20% do total de edições do site é feita por robôs. Não é incomum, relata Beatriz, em função desse modelo centralizado de validação, que ocorram as chamadas “Guerras de Edição”, entre novos usuários, com menos prática e reputação, e verificadores de conteúdo.
A reputação dos colaboradores também é levada a sério na “enciclopédia livre”. Apesar de ser possível a edição anônima, os colaboradores identificados e com o maior número de contribuições reconhecidas ganham maior poder, constituindo-se em administradores supervisores do projeto.

A comunidade em rede encontrou, ainda, outras maneiras de reconhecer e creditar autores. “Uma referência é o movimento software livre, que conseguiu consolidar um modelo produtivo interativo, cooperativo e baseado na reputação”, lembra a pesquisadora. Um dos exemplos mais famosos desse modelo é o sistema operacional Linux, para o qual centenas de programadores colaboram voluntariamente e são identificados no pedaço do código que aperfeiçoaram no programa. A jornalista cita também a rede social de microblogs, Twitter, em que o retweet, réplica da postagem de outra pessoa, constitui-se em uma forma de dar referência à fonte da informação.

Link da matéria na Agência USP

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Mapeamento da produção P2P no Brasil

Estou tendo o privilégio de participar, de 12/11 a 11/12, do curso “As formas colaborativas de produção e o comum”, ministrado por Michel Bauwens, numa promoção conjunta do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia e da Escola de Comunicação, ambos da UFRJ.

Bauwens coordena a P2P Foundation, uma organização que estuda o impacto da tecnologia peer to peer na sociedade, isto é, investiga as transformações que a topologia distribuída das redes de comunicação tem trazido para os mais variados campos da atuação humana – política; ciência; cultura; mercado etc.

O modelo P2P se caracteriza por novas dinâmicas produtivas, nas quais predominam a auto-organização entre pares, pessoas criando valor a partir de suas trocas de forma autônoma. Podemos observar esse fenômeno em inúmeros exemplos, como a Wikipédia, estudada aqui neste blog. Já o sistema operacional Linux, tanta vezes citado por aqui, é talvez a principal referência desse novo paradigma produtivo.

Pois bem, uma das propostas do curso é construir um mapeamento de projetos P2P no Brasil. A ideia é incluir todas iniciativas e atividade de produção colaborativa, de economia solidária e de produção de riquezas comuns (digitais ou não). Não é uma tarefa simples, pois o país é muito grande e diverso, com muitas experiências interessantes dentro desse escopo. É preciso um esforço para conseguir fazer um levantamento que seja de fato representativo de toda a diversidade de projetos existentes.

De saída, me lembro de dois mais ligados a áreas que eu pesquiso: o projeto PortoAlegre.CC e o site de cultura Overmundo.

E você, sabe de mais algum projeto que deva estar nesse levantamento? Lembre-se de que podem ser iniciativas não digitais. Se souber, deixe um comentário.

Leia mais sobre o mapeamento.

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A credibilidade da Wikipédia, mais uma vez, em xeque

Alguém pode ser mais gabaritado para falar da inspiração de uma obra do que o seu próprio autor? Pois a Wikipédia acha que não. Este foi o cerne de uma briga que envolveu recentemente o escritor norte-americano Philip Roth e um administrador da Wikipédia em língua inglesa. Ao pedir a correção de uma informação sobre em quem teria sido baseado o seu livro “A marca humana”, Roth recebeu a seguinte resposta: “Compreendo seu argumento de que o autor é a maior autoridade sobre sua obra, mas nós exigimos fontes secundárias”.

Indignado com a resposta, Roth escreveu uma carta aberta à Wikipédia no blog “Page-Turner”, da revista “The New Yorker”, expondo o problema. Isso repercutiu pela imprensa do mundo todo e mais uma vez trouxe à tona o problema da credibilidade da enciclopédia eletrônica colaborativa. Por fim, o verbete sobre o livro acabou incorporando a correção do escritor, porque agora já tem a referência externa – a carta aberta publicada – para citar. Mas não podia ter sido mais simples?

Você pode ler uma tradução da carta de Philip Roth no site do Observatório da Imprensa

Este parece ser mais um caso em que a regra, em vez de servir de parâmetro para o bom desenvolvimento do projeto, acaba por engessá-lo. A Wikipédia tem uma série de normas para edição, e isto é necessário já que se quer dar um conceito e uma unidade ao projeto. No entanto, essas diretrizes não devem ir de encontro ao bom senso. O que deve valer é o espírito da norma: as fontes secundárias são pedidas para confirmar a informação. No entanto, se o próprio autor de uma obra afirma que os dados estão errados, essa confirmação deixa de ser necessária. É óbvio.

A Wikipédia é um dos sites mais acessados em todo mundo e não há como negar sua utilidade como uma primeira fonte de consulta, devido em grande parte às referências externas que têm o potencial de ampliar e dar consistência à pesquisa. Porém, como um projeto de grande dimensão – só em português atualmente já são mais de 750 mil artigos – tem também muitos problemas. Há algum tempo eu escrevi aqui sobre a denúncia dos artistas que criaram a “Freakpedia – a verdadeira enciclopédia livre porque se sentiram censurados pelos administradores. Leia mais aqui.

De fato, a estrutura administrativa do projeto, um tanto hierarquizada, pode acabar criando problemas. É muito comum a queixa de colaboradores novatos sobre a reversão (ou retirada) de suas edições pelos administradores. É compreensível que seja necessário estabelecer normas para garantir a qualidade dos artigos, porém o difícil é conseguir fazer com que prevaleça o bom senso sobre a rigidez da obediência cega às regras.

Leia mais sobre o processo burocratização da Wikipédia no artigo “Don’t look now, but we’ve created a bureaucracy: the nature and roles of policies and rules in Wikipedia“.

E os problemas de credibilidade da Wikipédia não param por aí. Esta semana foi divulgado mais um caso envolvendo administradores do Reino Unido: “Corruption in Wikiland? Paid PR scandal erupts at Wikipedia”.

Por outro lado, a Wikipédia não é uma publicação pronta e fechada. Ao contrário, o projeto é um processo contínuo de produção colaborativa: os artigos estão sempre sendo modificados e atualizados. E também as próprias normas editoriais, em tese, não são fixas, isto é, podem ser modificadas pela comunidade de participantes. Sendo assim, espera-se que este embate ajude a expor o excesso de burocracia por parte dos administradores e contribua para aperfeiçoar seu sistema editorial.

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Interfaces colaborativas – propostas, problemas, perspectivas

Na semana passada dei uma entrevista para o blog do Carlos Nepomuceno, jornalista e consultor para o mundo web. Entre outras coisas conversamos sobre interfaces colaborativas, especialmente sobre como ainda é difícil para os grandes jornais lidarem com as interações do público como algo que possa gerar valor. De um modo geral, os comentários são vistos como um mal necessário, algo que se aceita receber para se obter uma “cara” de jornalismo colaborativo, mas que de fato é encarado como um refugo, e não como conteúdo.

O tema veio à tona por conta de minha dissertação de mestrado, sobre o modelo de mediação auto-organizado do Slashdot. O site funciona como um fórum de discussão sobre notícias ligadas ao universo hacker – tecnologia, games, liberdade na rede, Open Source e Software Livre, etc. Cada um desses fóruns recebe centenas de comentários que são avaliados pela própria comunidade do site através de votação que resulta num ranking que vai de -1 até 5. Dessa forma, auto-organizada, as interações passam por um filtro que destaca o melhor das contribuições. Outro componente deste modelo de mediação colaborativo é o sistema chamado de karma, que pontua cada membro da comunidade de acordo com sua atuação, e oferece algumas vantagens para os mais bem pontuados.

O problema desse sistema, que eu analisei na minha pesquisa, é que os critérios para esta avaliação acabam sendo marcados por uma espécie de pensamento de grupo, isto é, tendem à homogeneidade. Em outras palavras, comentários discordantes do ideário hacker – por exemplo, um que defendia a superioridade do sistema operacional Windows em uma situação específica – são avaliados como negativos e tendem a perder visibilidade na interface. Se quiser conhecer o estudo de caso em mais detalhes, baixe aqui a dissertação.

A experiência do Slashdot serviu de inspiração para muitos outros projetos colaborativos, entre eles o brasileiro Overmundo. Como já analisei em outro post, depois de algum tempo foi preciso reformular o modelo porque o sistema de karma passou a gerar problemas de alta competição na comunidade e a fortalecer ainda mais as panelinhas existentes. Abandonou-se então essa pontuação dos participantes e optou-se por um sistema mais aberto onde todas as colaborações sejam publicadas nos espaços mais nobres do portal. Dessa forma, foi possível chegar mais perto do objetivo do projeto que é divulgar a diversidade da produção cultural brasileira.

Sistemas auto-organizados de valoração têm sido largamente usados nos mais variados projetos de sites, como o Mercado Livre, para avaliar a reputação dos vendedores; o Digg, para ranquear as notícias; e ainda nos comentários do Youtube, para destacar os mais interessantes.

Neste ponto, eu volto ao início: por que os jornais online não aproveitam melhor desses sistemas para dar relevância aos comentários? É certo que uma equipe de jornalistas teria muita dificuldade em acompanhar todos os centenas ou milhares de comentários diários em um site como o Globo Online. Mas, e se passasse esta tarefa para o público? Se os próprios participantes, que estão lendo ou fazendo comentários, votassem naqueles que na sua opinião fossem os mais importantes? O que aconteceria é que teríamos como resultado uma interface muito mais inteligente e interessante, que ofereceria, de forma emergente, um filtro para aquele universo inicialmente caótico de informações.

Esses comentários destacados não só facilitariam a leitura, a área de comentário se transformaria em um espaço mais nobre do que é hoje, mas também poderiam oferecer informações relevantes para os próprios jornalistas – novas pautas ou dados complementares às matérias. Alguns jornais online criaram projetos de participação do leitor com envio de matérias, fotos ou artigos, no estilo cidadão repórter. Mas para entrar de fato na linguagem digital podem ir mais além, aperfeiçoando suas interfaces a fim de torná-las mais dialógicas e inteligentes. Torço para que tenham essa ousadia!

Ouça: Entrevista ao Blog do Nepô, sobre a autoria em rede e as interfaces colaborativas

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Autoria e autoridade – ou quem autoriza a produção discursiva?

Em minha pesquisa, tenho estudado a autoria como uma construção histórica que varia em diferentes contextos e épocas. O ponto que tenho me dedicado agora é a investigação de como se dá a relação entre a autoria e a autoridade. Partindo do conceito de função autor, proposto por Foucault, eu penso a autoria como aquilo que dá forma ao discurso, determina sua existência e circulação. E autoridade seria então aquilo que em diversos momentos históricos deu validou esse discurso.

Se desde a Modernidade, essa validação passa de forma hegemônica pela figura do autor, por seu talento ou especialidade, em outros períodos havia outras formas de chancela cultural, que de algum modo tinham um caráter mais coletivo.

Na Antiguidade, havia a figura das musas. A criação poética era mais fluida. Cada recitador, ou bardo, ao mesmo tempo em que declamava também criava, inserindo sempre algo de seu, que posteriormente poderia ser apropriado por outros, num processo aberto e contínuo. Sua performance era reconhecida por sua força expressiva, mas aquilo que somava à criação poética não era visto como fruto de sua individualidade.

Para além do poeta, havia a representação simbólica, à qual ele deveria se submeter, ou seguir, a fim de ter sua produção artística reconhecida como tal. E esta tradição cultural manifestava-se da figura mítica das musas, filhas de Zeus, que era responsável por dar consistência às criações, assegurando que a composição, mesmo que coletiva ou improvisada, era parte da cultura vigente.

Já na Idade Média havia a auctoritas que representava a mediação entre a fonte divina e o humano. Formada por clérigos, que se dedicavam ao estudo hermenêutico da Bíblia, era um coletivo hierarquizado responsável pelo estabelecimento de uma doutrina que determinava o valor da produção textual. Assim, a expressão individual estava sempre subordinada à avaliação deste cânone, reconhecido como o legítimo porta-voz do saber divino, para ser referendada e aceita como algo digno de atenção. A auctoritas era a própria representação da autoridade de Deus na terra, daí seu poder de validar ou vetar a produção discursiva. Vale lembrar que naquela época Deus era a fonte da inspiração suprema para todas as obras, o seu verdadeiro autor.

Um importante abalo na forma de produção e validação dos textos se dá com a chegada da Modernidade, quando surgem as condições culturais que tornam possível a consolidação da autoria como um processo centrado no indivíduo. É importante observar que a Modernidade foi também a era do projeto do sujeito autônomo. O conhecimento sofre deslocamento sob essa nova conjuntura, passando a orbitar em torno do sujeito. E também a era da ascensão da razão como parâmetro para o conhecimento. Neste contexto, a figura do autor como um indivíduo criador é fortalecida.

Com o Romantismo o entendimento da autoria como um atributo individual é ainda mais radicalizado. Nesse período, o autor deixa de ser visto como um artesão movido por uma inspiração transcendental para ganhar um outro patamar: o de gênio criador. Nessa época, mais do que em qualquer outra, foi afirmado o valor do talento individual como o fator determinante do processo criativo e também de sua validação.

Depois disso, ainda no século XIX, a concepção do autor individual e autônomo começa a ser deslocada sob o impacto de significativos abalos sofridos nos discursos do conhecimento moderno. Esse deslocamento atinge seu ápice com os pensadores do pós-estruturalismo, que irão inverter o entendimento do processo autoral, priorizando o discurso ou a linguagem em detrimento do sujeito, este último por si só, para eles, uma categoria já sob suspeição.

No entanto, mesmo com o questionamento da natureza subjetiva da autoria, a produção textual continuou baseada, de forma hegemônica, na criação individual e na análise do autor e sua obra, com ênfase ainda na assinatura do especialista ou do escritor como fatores de qualificação dos textos. Do ponto de vista da validação da obra, importava ainda saber quem escreveu e quais são suas credenciais, científicas ou artísticas, para chancelar determinada produção.

Eu aprofundei esta parte teórica da história das relações entre autoria e autoridade no artigo que vou apresentar esta semana no IV Simpósio da ABCiber.

Na atualidade, um importante deslocamento vem sendo observado nos processos autorais nos meios digitais, cada vez mais marcados por uma ação colaborativa entre múltiplos agentes criativos. O lugar anteriormente ocupado pelo especialista ou pelo gênio criador, cuja assinatura era já sinônimo de valor, é apropriado por uma multidão de atores sociais distribuídos em rede que criam coletivamente os mais diferentes tipos de publicações como jornais, blogs e enciclopédias.

Neste contexto novos sistemas de validação vem sendo criados, de forma a dar qualidade aos textos e separar a informação relevante do ruído. Já tivemos oportunidade de estudar o sistema de validação distribuída do website Slashdot , um dos pioneiros na implantação de modelos de qualificação de conteúdo baseados na avaliação do público leitor participante. Seu modelo serviu de inspiração para muitos outros projetos, como o americano Digg e o brasileiro Overmundo , ambos baseados em sistemas de pontuação que organizam e valorizam, de forma distribuída, as matérias publicadas.

E existe ainda o modelo de validação empregado pela Wikipédia, mais centralizado. Analisei alguns pontos neste post.

Daqui a alguns dias vou postar a análise sobre o modelo de validação do Overmundo, que passou por algumas mudanças desde a sua criação, e por isso mesmo é um caso bem interessante pra se pensar sobre os problemas da implantação de sistemas distribuídos de qualificação de conteúdo.

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