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O tropeço do Instagram

Vou comentar aqui, com um certo atraso, o recente tropeço do Instagram, um aplicativo para celular e tablet que permite que as pessoas postem e compartilhem suas fotos.

No mês passado, o Instagram causou um rebuliço ao anunciar que passaria a comercializar as imagens postadas pelos participantes. A reação foi imediata: de acordo com a AppsStats, empresa que mede o tráfego de aplicativos, a rede social perdeu mais da metade de seus usuários ativos diários. Das 16,3 milhões de pessoas que acessavam diariamente a rede em dezembro, apenas 7,6 milhões continuaram ativas em janeiro.

Depois da reação, o Instagram mudou de tom. O próprio fundador e diretor-executivo, Kevin Systrom, veio a público dizer que tudo não passou de um mal-entendido e que eles não tinham a intenção de vender as fotos postadas no aplicativo. Mesmo assim, o impacto negativo foi enorme.

Tem alguns aspectos que merecem ser analisados nesse caso. Em primeiro lugar, de fato, as pessoas se sentiram traídas pois as regras seriam mudadas no meio do caminho, caracterizando um tipo de quebra de contrato. Muitos tinham dezenas ou centenas de imagens ali, e se sentiram ludibriados pela possibilidade de uma súbita alteração nos termos de serviço.

Sem falar no fato de que o aplicativo pretendia lucrar com imagens dos participantes sem lhes repassar nenhum tipo de remuneração por isso. Seria, a meu ver, uma prática abusiva.

Muito mais interessante e inteligente, por exemplo, é a estratégia da Google de oferecer aos participantes do Blogger, a sua plataforma para a publicação e gerenciamento de blogs, a possibilidade de colocar anúncios, através do Google AdSense, e receber dinheiro de acordo com alguns critérios, como o número de cliques e de visitas etc. É uma proposta de lucro partilhado, mais justa e atraente.

Mas tem um outro lado que talvez seja o mais relevante: a total falta de visão, por parte dos administradores do Instagram, de como se dão as interações nas redes sociais, onde existe já uma cultura disseminada e consolidada de livre compartilhamento de conteúdo, sem a previsão de cobrança.

E o mais importante: são as pessoas que produzem valor nessas redes – como Instagram, Facebook, Youtube ou Twitter – e não puramente o aplicativo ou a plataforma de forma isolada. O que seria desses espaços se não fossem as milhões de pessoas que postam conteúdo todos os dias? Seriam um deserto desinteressante e sem a menor possibilidade de gerar lucro.

Qualquer forma de estratégia de negócio na rede tem que partir do reconhecimento e da valorização da cultura de livre compartilhamento, senão tende mesmo a fracassar. As pessoas que postam das redes (talvez fosse mais correto chamá-los de participantes e não de usuários) não são passivos ou mero receptores como a audiência dos veículos de comunicação de massa. Ao contrário, são ativos, são produtores de conteúdo, e não podem ser tratados como meros consumidores a quem se possa impor regras. Esta é a premissa básica para o desenvolvimento de qualquer projeto em redes sociais.

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A polêmica sobre o uso das redes sociais e o processo eleitoral

Posto aqui meu artigo publicado no site do vereador Eliomar Coelho (PSOL/RJ) sobre a polêmica do uso das redes sociais no período pré-eleitoral. Embora o assunto não seja diretamente ligado à questão da autoria, tema central deste blog, aborda aspectos da comunicação em rede que tenho ressaltado em outros posts. Por esta razão, penso que de algum modo se relaciona com as discussões que tenho levantado aqui.

A Justiça eleitoral brasileira ainda não conseguiu entender o espírito da comunicação pela Internet. Na semana passada, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro notificou o prefeito de Queimados, Max Lemos (PMDB, por uso indevido das redes sociais. Segundo o TRE, Lemos não poderia divulgar em seu perfil do Facebook informações sobre sua atuação frente à administração do município porque estaria caracterizada a propaganda eleitoral antecipada. Esta foi a primeira decisão judicial sobre o assunto após a determinação do Tribunal Superior Eleitoral, em 15 de março, de proibir a divulgação de mensagens de caráter eleitoral pelo Twitter antes de 6 de julho.

As duas medidas, no entanto, são equivocadas pois não levam em conta as peculiaridades da comunicação pela rede de computadores. Em primeiro lugar, é preciso considerar que o princípio das restrições de propaganda no período pré-eleitoral é o de garantir a lisura do processo eleitoral, isto é, assegurar a equidade das candidaturas e impedir a prevalência do poder econômico sobre o direito de expressão. Nas redes sociais, como Facebook ou Twitter, não existe esta ameaça, muito pelo contrário. Podemos afirmar que a Internet é o meio de comunicação mais democrático que existe, pois permite que qualquer um, independentemente de sua condição financeira, crie e abasteça perfis nessas redes a baixo custo, em pé de igualdade com alguém que contrate uma agência de publicidade para isso.

Na rede, a criatividade, somada à relevância da proposta política que se defende, pode ter muito mais repercussão do que o orçamento investido em propaganda. Um caso recente foi o excelente uso das ferramentas da Internet, especialmente do Twitter e do TwitCam, pelo candidato do PSOL à presidência da República no ano pleito de 2010. Plínio de Arruda Sampaio fez um uso criativo desses recursos e conseguiu sobressair em meio à mesmice dos discursos burocráticos dos demais candidatos. Por exemplo, quando a Folha de São Paulo em parceria com o portal UOL promoveu o debate presidencial apenas entre os candidatos mais bem colocados nas pesquisas, excluindo o candidato do PSOL, Plínio resolveu furar o muro de silêncio, e participou do debate via TwitCam, respondendo às perguntas feitas aos outros candidatos e comentando as respostas dos adversários. Com isso, seu nome chegou ao Trending Topics mundial do Twitter, que registra os temas mais comentados nesta rede de microblog. No dia seguinte, seu feito ganhou destaque na imprensa nacional, provavelmente até mais do que se ele tivesse participado oficialmente do debate.

Outro ponto, talvez mais relevante, é que a comunicação pelas redes sociais se aproxima muito mais de um diálogo, como um bate-papo na mesa de bar, do que de uma transmissão ao estilo dos meios de comunicação de massa tradicionais, como o rádio e a televisão. Sendo assim, ao se proibir a manifestação na Internet, acaba-se por cercear o debate sobre o processo eleitoral entre os cidadãos. Em entrevista publicada no site do jornal O Globo, no dia 2 de abril, o constitucionalista e professor da Faculdade de Direito da Uerj Gustavo Binenbojm afirma que as recentes decisões judiciais envolvendo o uso de redes sociais foram excessivas e desproporcionais, representando uma restrição injustificável à liberdade de expressão e ao direito à informação, dois princípios jurídicos fundamentais. Para ele, a legislação eleitoral brasileira, promulgada em 1997, precisa ser atualizada.

Mas, felizmente, a questão ainda não está fechada. O Partido Popular Socialista (PPS) entrou, no dia 20 de março, com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) contra decisão de proibir o uso do Twitter por pré-candidatos fora do período eleitoral, pela livre manifestação de pensamento. Espera-se que os ministros do STF estejam conectados com a nova dinâmica da comunicação eletrônica e tenham mais sensibilidade para compreender o papel das redes sociais na ampliação do debate político, tão importante no ano eleitoral.

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