Arquivo do mês: setembro 2010

Hackers – os dissidentes do capitalismo digital

Pra se pensar o fenômeno da autoria colaborativa um dos pontos que acho muito interessante é conhecer um pouco da história da invenção da Internet, na qual podemos constatar com muita clareza a ação fundamental dos hackers na definição dos parâmetros da comunicação mediada por computador. Já escrevi um artigo sobre isso.

Pra começo de conversa, é preciso diferenciar cracker de hacker. Os primeiros são os criminosos que invadem os computadores à procura de senhas com o objetivo de roubar, agem em benefício próprio e com fins escusos. Com os hackers a estória é totalmente outra: são aqueles aficionados por tecnologia que gostam de desvendar os sistemas de computação, têm a cooperação produtiva como o modelo de trabalho e a defesa do livre fluxo de informação como condição para a plena realização deste modelo.

Sua história começa no final da década de 50 do século passado, quando participaram da chamada revolução informática, impregnando o que seria mais um projeto de expansão tecnológica com sua cultura libertária. A ação dos hackers, sobretudo, foi determinante para gerar um tipo de ocupação da rede, na qual as relações de trocas entre parceiros são privilegiadas. Essas parcerias, que estiveram presentes desde a criação da Internet, povoaram a rede e inverteram o seu propósito inicial de ser um espaço de comando e controle. As novas associações geradas pelas redes de parceria fazem o conhecimento crescer exponencialmente como capital social partilhado, e afirmam sua potência de comunicação e de gestão do bem-comum.

As redes peer-to-peer, por exemplo, são uma das criações dos hackers. O interessante é perceber o caráter contínuo e distribuído da sua ação. Pouco importa que uma rede caia, como no caso Napster, outras serão criadas ad infinitum porque sempre há hackers atuando para garantir que os canais de compartilhamento se mantenham em plena operação. Como uma dissidência do capitalismo, como uma militância incansável pelo livre fluxo de dados.

Herdeiros do modelo de produção do conhecimento científico praticado pela academia, no qual a evolução da ciência se dá pela troca de informação e colaboração entre pesquisadores, radicalizaram a máxima do conhecimento compartilhado como a base de seu modelo de cooperação produtiva, transformando-a em uma bandeira pela livre circulação de informação entre parceiros na rede. Fazem parte da classe dos trabalhadores do imaterial, profissionais altamente qualificados, no entanto, não desejam se incluir na elite desse novo modelo produtivo, mas sim professar outros valores de vida: têm o prazer como sua mais forte motivação no trabalho e defendem o compartilhamento das informações como o método de sua produção.

Filiam-se a uma outra ética, como argumenta Pekka Himanen oposta à ética protestante do trabalho, definida por Max Weber. Enquanto a ética protestante tem o trabalho como valor em si mesmo e como dever, para o hacker trabalho é paixão e divertimento. Diversão não como um passatempo sem compromisso ou esforço, mas, ao contrário, uma diversão acompanhada de grande dedicação.

Além de terem influenciado as práticas sociais na rede com a disseminação da cooperação produtiva como seu método de trabalho, os hackers contribuíram de maneira determinante para a reconfiguração do direito autoral e mesmo da concepção de autoria. O movimento do software livre, iniciado na década de 80 pelo pioneiro Richard Stallman, rendeu não só uma ampla e bem-sucedida produção de programas feitos de forma aberta e coletiva, como o sistema operacional Linux, por exemplo, o maior concorrente em escala mundial do proprietário Windows, mas também uma nova forma de se entender e praticar a autoria de softwares. Inclusive uma nova licença, a GPL – General Public License, adequada a um modelo autoral livre e colaborativo.

Vale visitar a página da Free Software Foundation para conhecer um pouco mais dessa história.

A cultura de compartilhamento que é a alma, ou o coração, da rede deve muito a ação desses dissidentes do capitalismo digital, como define André Gorz, que investiram sua criatividade na construção de softwares para a livre circulação da informação e para o trabalho cooperativo.

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Arquivado em Cibercultura, Cultura hacker

Remix – uma antiga novidade

As tecnologias digitais popularizaram a prática da criação coletiva que existe desde sempre.

Os trovadores da Antiguidade já recriavam os versos que recitavam, colocando sempre algo de seu naquilo que vinha da tradição cultural. Num movimento constante em que a tradição era sempre revista, atualizada, por cada declamador. E a criação, fluida.

Com a escrita os versos tenderam a se fixar no papel. Mesmo assim, em muitos casos, antes de chegarem ao papel eram gerados num tipo de criação coletiva, feita de atualizações da tradição.

Há pesquisas que afirmam que assim foi com Ilíada e Odisséia, versos da cultura popular que foram registrados por Homero, e também com Romeu e Julieta e tantas outras obras de Shakespeare, que as teria colhido tradição oral, por definição feita de uma memória coletiva sempre em movimento. O mesmo com os contos de Andersen e por aí vai.

Então quando hoje presenciamos o fenômeno da cultura do remix, largamente disseminada pela rede, há uma certa tendência de ver ali uma grande novidade, quando o que se dá de fato é uma atualização, pelos recursos da mídia eletrônica, de algo que em certa medida sempre existiu: a criação de obras derivadas de outras obras.

Esta ideia é interessante para repensar a crença de que sem o estatuto do direito autoral a criação deixaria de existir por falta de incentivo ao autor. Não é verdade. Porque a humanidade sempre criou, mesmo quando não havia o direito autoral ou a propriedade intelectual. E também porque continua criando e inventando novos modelos de negócio que independem de uma legislação de proteção de uso da obra tão restritiva.

Sobre esta questão, já publiquei aqui o artigo do Guilherme Carboni, Quem tem medo da Reforma?

O vídeo A Remix Manifesto faz um grande apanhado sobre a cultura do remix na música, apresentando especialmente o caso do DJ Girl Talk e discutindo toda a repercussão dessa prática na indústria cultural. Traz inclusive exemplos brasileiros, como o Tecnobrega. Abaixo a primeira parte no Youtube:

Um exemplo muito legal da dinâmica da cultura remix na rede é essa seqüência feita por Volker Grassmuck, um pesquisador alemão que atualmente está dando aula como professor visitante na USP, sobre o caso Double Rainbow, um vídeo caseiro que se transformou em viral, teve mais de 3 milhões de hits em oito dias, e serviu de inspiração para uma série de remix, nos mais variados estilos. Clique aqui para conferir.

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Arquivado em Autoria Colaborativa, Remix

Autoria maquínica – o computador autor

Um dos aspectos mais instigantes relativo aos processos autorais de escrita eletrônica é quando em cena um elemento que desloca de vez a noção de autoria como algo de natureza individual e mesmo humana: o próprio computador no papel de agente criador. Mais do que mero processador e armazenador de informações, o computador nesse caso é um manipulador de signos.

A participação do computador na criação textual é algo pouco explorado, ainda nascente, que pode ser observado especialmente em alguns projetos artísticos. Vamos nos deter aqui na análise um exemplo dessa autoria maquínica ligado à produção textual, denominado de texto generativo ou literatura generativa.

A construção desse tipo de obra se dá em dois momentos: uma do planejamento; e outra de sua execução propriamente dita. Em primeiro lugar, o homem, meta-autor, pensa o projeto e define suas variáveis, ou seja, desenvolve as diretrizes do software. Na segunda etapa, a máquina processa essas informações e apresenta múltiplos resultantes, na forma de construções discursivas que são atualizações do campo de virtualidades.

No entanto, as saídas criadas pelo computador são potenciais mas não previsíveis. Inventam um campo de significados não imaginados a priori e podem surpreender com a invenção de signos e sentidos originais. Como gera um novo, pode desestabilizar o pensamento e instigar reflexões. Nesse sentido, pode-se pensar a máquina como parte atuante no processo de criação artística, já que ela fornece elementos que deslocam o entendimento e a percepção de forma única e original.

Clique aqui para conhecer Sintext de Pedro Barbosa

Como exemplo de projetos dessa natureza podemos citar o Sintext, de Pedro Barbosa , um projeto de literatura algorítmica. A partir de um eixo sintagmático (sequência parentetizada) e um eixo paradigmático (base lexical conjugada), o computador gera uma infinidade de produções discursivas com diferentes significados. Aqui pode-se falar na existência de um texto virtual, no sentido de que é um texto que pode se desdobrar quase indefinidamente em outros textos, com sentidos originais, muito além de uma predefinição já dada.

Clique aqui para conhecer o Poemário

Na mesma linha, vale conhecer o projeto Poemário de Rui Torres e Nuno Ferreira, um gerador de poemas combinatórios.

Um outro exemplo é o projeto experimento tecno-poético intitulado “máquina de escrever avariada” de Artur Matuck, uma proposta de eletroescritura. A primeira destas máquinas, Theoretical Wind, um subprograma computacional, retirava consoantes e vogais de uma palavra digitada e inseria apenas consoantes em seu lugar. Daí eram criadas novas palavras que por sua vez geravam maior complexidade semiótica, na medida em que propunham significantes originais que poderiam contribuir para a renovação do código linguistico. Diversas “máquinas avariadas” estiveram disponíveis no site Landscript entre 2001 e 2005, atualizando o projeto original da eletroescritura para usuários online. O poema Hpistemmlogy, escrito em 1995 em Gainesville, Flórida, é um exemplo desse processo autoral homem-máquina criado por Matuck:

Hpistemmlogy
epistrmobogy
epistemologt
epistpmoloyy
epistemoqogy
epistemtlogr
epistxmology
episvcmohogy
ebhstvmology
episteqolqgy
hpistemmlogy
Epistemology (MATUCK, 2009, p. 6)

É possível observar a filiação desses projetos às primeiras experiências de Arte Combinatória, que remontam pelo menos ao século XIII com as ideias do filósofo catalão do século 13 Ramon Lull, e que ganharam maior densidade com a Dissertatio de Arte Combinatória de Leibniz, no século XVII.

Um exemplo contemporâneo bastante conhecido é o poema Cent Mille Milliards de Poèmes, criado em 1961 por Raymond Queneau, do grupo francês OULIPO – Ouvroir de Littérature Potentielle (Oficina de Literatura Potencial). Composto de dez sonetos de 14 versos alexandrinos impressos em tiras diferentes, que podem ser manipuladas de forma independente, permitindo montar 100 trilhões (1014) de combinações aleatórias. E a cada composição tem-se uma variação semântica no mesmo estilo do que resulta nas experiências de texto generativo: criando novos sentidos a partir de uma virtualidade de variáveis.

Vemos, portanto, que a ideia de uma produção textual que tenha por base uma inspiração matemática, com elementos de composição aleatórios e imprevisíveis, e que possa assim desestabilizar um campo de significações até certo ponto controlado por um autor, existia muito antes da invenção da informática. No entanto, o computador, com sua velocidade e automação, tornou possível um sem número de projetos experimentais que exploram de forma muito mais ampla a produção de textos combinatórios generativos. A máquina digital elevou exponencialmente o potencial da geração automática de textos a partir de variáveis a uma proporção antes inimaginável.

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A vida em um dia

Mais de 80 mil pessoas enviaram vídeos para o projeto colaborativo “A vida em um dia”, produzido pelo cineasta Ridley Scott. A proposta é editar um documentário com as mais interessantes e originais imagens do dia 24 de julho de 2010.

Ridley Scott é o diretor de Blade Runner, na minha opinião, um dos melhores filmes de todos os tempos. Minha expectativa com o resultado final da experiência, portanto, é bem alta. O filme deve ser lançado em janeiro.

Mais informações sobre o projeto em youtube.com/lifeinaday

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