Autoria e autoridade – ou quem autoriza a produção discursiva?

Em minha pesquisa, tenho estudado a autoria como uma construção histórica que varia em diferentes contextos e épocas. O ponto que tenho me dedicado agora é a investigação de como se dá a relação entre a autoria e a autoridade. Partindo do conceito de função autor, proposto por Foucault, eu penso a autoria como aquilo que dá forma ao discurso, determina sua existência e circulação. E autoridade seria então aquilo que em diversos momentos históricos deu validou esse discurso.

Se desde a Modernidade, essa validação passa de forma hegemônica pela figura do autor, por seu talento ou especialidade, em outros períodos havia outras formas de chancela cultural, que de algum modo tinham um caráter mais coletivo.

Na Antiguidade, havia a figura das musas. A criação poética era mais fluida. Cada recitador, ou bardo, ao mesmo tempo em que declamava também criava, inserindo sempre algo de seu, que posteriormente poderia ser apropriado por outros, num processo aberto e contínuo. Sua performance era reconhecida por sua força expressiva, mas aquilo que somava à criação poética não era visto como fruto de sua individualidade.

Para além do poeta, havia a representação simbólica, à qual ele deveria se submeter, ou seguir, a fim de ter sua produção artística reconhecida como tal. E esta tradição cultural manifestava-se da figura mítica das musas, filhas de Zeus, que era responsável por dar consistência às criações, assegurando que a composição, mesmo que coletiva ou improvisada, era parte da cultura vigente.

Já na Idade Média havia a auctoritas que representava a mediação entre a fonte divina e o humano. Formada por clérigos, que se dedicavam ao estudo hermenêutico da Bíblia, era um coletivo hierarquizado responsável pelo estabelecimento de uma doutrina que determinava o valor da produção textual. Assim, a expressão individual estava sempre subordinada à avaliação deste cânone, reconhecido como o legítimo porta-voz do saber divino, para ser referendada e aceita como algo digno de atenção. A auctoritas era a própria representação da autoridade de Deus na terra, daí seu poder de validar ou vetar a produção discursiva. Vale lembrar que naquela época Deus era a fonte da inspiração suprema para todas as obras, o seu verdadeiro autor.

Um importante abalo na forma de produção e validação dos textos se dá com a chegada da Modernidade, quando surgem as condições culturais que tornam possível a consolidação da autoria como um processo centrado no indivíduo. É importante observar que a Modernidade foi também a era do projeto do sujeito autônomo. O conhecimento sofre deslocamento sob essa nova conjuntura, passando a orbitar em torno do sujeito. E também a era da ascensão da razão como parâmetro para o conhecimento. Neste contexto, a figura do autor como um indivíduo criador é fortalecida.

Com o Romantismo o entendimento da autoria como um atributo individual é ainda mais radicalizado. Nesse período, o autor deixa de ser visto como um artesão movido por uma inspiração transcendental para ganhar um outro patamar: o de gênio criador. Nessa época, mais do que em qualquer outra, foi afirmado o valor do talento individual como o fator determinante do processo criativo e também de sua validação.

Depois disso, ainda no século XIX, a concepção do autor individual e autônomo começa a ser deslocada sob o impacto de significativos abalos sofridos nos discursos do conhecimento moderno. Esse deslocamento atinge seu ápice com os pensadores do pós-estruturalismo, que irão inverter o entendimento do processo autoral, priorizando o discurso ou a linguagem em detrimento do sujeito, este último por si só, para eles, uma categoria já sob suspeição.

No entanto, mesmo com o questionamento da natureza subjetiva da autoria, a produção textual continuou baseada, de forma hegemônica, na criação individual e na análise do autor e sua obra, com ênfase ainda na assinatura do especialista ou do escritor como fatores de qualificação dos textos. Do ponto de vista da validação da obra, importava ainda saber quem escreveu e quais são suas credenciais, científicas ou artísticas, para chancelar determinada produção.

Eu aprofundei esta parte teórica da história das relações entre autoria e autoridade no artigo que vou apresentar esta semana no IV Simpósio da ABCiber.

Na atualidade, um importante deslocamento vem sendo observado nos processos autorais nos meios digitais, cada vez mais marcados por uma ação colaborativa entre múltiplos agentes criativos. O lugar anteriormente ocupado pelo especialista ou pelo gênio criador, cuja assinatura era já sinônimo de valor, é apropriado por uma multidão de atores sociais distribuídos em rede que criam coletivamente os mais diferentes tipos de publicações como jornais, blogs e enciclopédias.

Neste contexto novos sistemas de validação vem sendo criados, de forma a dar qualidade aos textos e separar a informação relevante do ruído. Já tivemos oportunidade de estudar o sistema de validação distribuída do website Slashdot , um dos pioneiros na implantação de modelos de qualificação de conteúdo baseados na avaliação do público leitor participante. Seu modelo serviu de inspiração para muitos outros projetos, como o americano Digg e o brasileiro Overmundo , ambos baseados em sistemas de pontuação que organizam e valorizam, de forma distribuída, as matérias publicadas.

E existe ainda o modelo de validação empregado pela Wikipédia, mais centralizado. Analisei alguns pontos neste post.

Daqui a alguns dias vou postar a análise sobre o modelo de validação do Overmundo, que passou por algumas mudanças desde a sua criação, e por isso mesmo é um caso bem interessante pra se pensar sobre os problemas da implantação de sistemas distribuídos de qualificação de conteúdo.

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Arquivado em Autoria Colaborativa, Sites colaborativos, Validação

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