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WikiRebels – o documentário

Embora já um pouco antigo, do final de 2010, o documentário WikiRebels continua relevante. Produzido pela tv estatal sueca (SVT), conta os detalhes da história do Wikileaks, do seu surgimento até o início do controverso processo judicial contra seu líder Julian Assange.

O vídeo, com legendas em português, traz imagens fortes de assassinatos de civis no Iraque pelas forças armadas dos Estados Unidos, que lamentavelmente não foram devidamente investigados e punidos até hoje.

O mais importante, porém, é que as imagens e documentos vazados pela organização transformaram para sempre a relação de forças na chamada guerra da informação. O Wikileaks criou um sistema de vazamento de informações de interesse público, ao oferecer um caminho para que os cidadãos possam divulgar e denunciar atos governamentais que julguem ilícitos, que dificilmente será estancado. Edward Snowden, responsável por tornar público detalhes do sistema de vigilância global da NSA, que o diga.

Estranho mundo este em que se defende com tanto fervor a liberdade de expressão, mas onde três protagonistas dos principais vazamentos de dados de alto interesse público estão confinados: Chelsea Manning, soldado que forneceu arquivos secretos norte-americanos ao Wikileaks, foi sentenciada a 35 anos de prisão; Julian Assange está refugiado na Embaixada do Equador em Londres há mais de dois anos e meio; e Edward Snowden permanece em asilo político desde junho de 2013 na Rússia.

Liberdade de expressão para que e para quem? Falta responder…

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Wikileaks e o paradoxo da liberdade de expressão

Mais uma vez, vou fugir um pouco do tema do blog para falar de outros aspectos da comunicação digital que estão desestabilizando o modo tradicional de circulação da informação. Estou me referindo especificamente ao Wikileaks, para quem ainda não sabe, uma organização internacional que divulga dados confidenciais, vazados de governos ou empresas, sobre temas sensíveis. Entre eles, um vídeo de 2007 que mostra o ataque de um helicóptero do exército norte-americano em Bagdá, que matou pelo menos 12 pessoas, entre elas dois jornalistas da agência de notícias Reuters; além de documentos secretos que confirmam a morte de milhares de civis no guerra do Afeganistão em decorrência da ação militar dos EUA.

Mais informações sobre o tema na Wikipédia

Ou direto no site do Wikileaks

Atualmente Julian Assange, seu fundador e um dos atuais coordenadores, está refugiado na embaixada do Equador em Londres. Ele responde a acusações de estupro e abuso sexual na Suécia, as quais nega, e corre o risco de ser extraditado para os Estados Unidos, onde pode ser processado por espionagem e fraude. Há especulações de que ele possa ser condenado à morte, já que um de seus principais informantes, o militar americano Bradley Manning, está preso em confinamento solitário há dois anos e meio na base naval de Quantico, sem direito sequer a julgamento.

Paulo Moreira Leite faz uma boa avaliação do caso aqui

Aí então é que surgem as perguntas: por que divulgar informações que são de interesse público é crime? Por que Assange foi transformado no inimigo público número um dos EUA? Além disso, por que organizações financeiras como Bank of America, VISA, MasterCard e PayPal bloquearam as doações ao Wikileaks? A liberdade de expressão não é um valor defendido com unhas e dentes pelos governos dos EUA e Inglaterra? O que mudou, afinal?

Antes da Internet, o modelo de produção e distribuição de notícias era bastante centralizado: poucas empresas jornalísticas tinham o monopólio sobre os dados aos quais a sociedade teria acesso. Mas, já há algum tempo, essa situação mudou, pois os produtores e disseminadores da informação se multiplicaram. Embora os meios de comunicação de massa, como televisão, jornal impresso e rádio, tenham ainda maior poder de penetração, sites e blogs constroem um contraponto à narrativa dominante, facilitando a circulação de posições políticas diversas e dificultando a constituição de um discurso único.

O Wikileaks trouxe um elemento a mais: a possibilidade de forçar a transparência de dados estratégicos, tanto do governo como de empresas. Para isso, conta com a ajuda de informantes anônimos, que repassam as informações de dentro dessas organizações. O meio digital facilita a operação, não só porque torna mais vulnerável o bloqueio ao acesso de dados, mas também porque permite sua rápida e ampla difusão. Um bom hacker pode fazer tudo isso sem deixar rastros…

Talvez o título deste post esteja incorreto. De fato, o paradoxo não é da liberdade de expressão, mas sim da forma pela qual essa bandeira tem sido levantada por governos ditos democráticos: dependendo dos interesses em jogo, do que se quer mostrar ou esconder, essa liberdade é incentivada ou criminalizada. Hoje, através das redes, não há mais como deter o livre fluxo da informação, doa a quem doer. O interesse público agradece.

Leia também o artigo dos cineastas Michael Moore e Oliver Stone – “Por que defendemos o Wikileaks e Assange”

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Wikileaks e a vigilância distribuída

Hoje de manhã Julian Assange se entregou à polícia britânica. Isso significa que o projeto de se vazar informações governamentais sigilosas deve acabar? Eu acredito que não por dois motivos: primeiro, porque o Wikileaks faz parte de um fenômeno mais amplo relacionado com a forma como hoje a vigilância não é mais top-down, mas sim distribuída. E segundo porque todas as tentativas de se deter o fluxo de informações através da Internet têm fracassado sistematicamente. Vou tentar me explicar melhor.

De tudo que tenho lido nos últimos dias sobre o Wikileaks, me chamou a atenção o artigo do Umberto Eco no qual ele destaca o fato de que a vigilância cessa de trabalhar só em um sentido e passa a ser circular. Você pode ler o texto Not such wicked leaks na íntegra em http://tinyurl.com/2fm7soh. Embora essa afirmação não seja exatamente um ponto de vista novo sobre os fenômenos envolvendo a cibercultura, toca em uma questão, a meu ver, definidora da própria natureza da rede.

As transformações dos modos de controle e vigilância na sociedade contemporânea é um dos temas que tem inspirado muitos estudos na área de Comunicação. A professora Fernanda Bruno tem já uma extensa pesquisa sobre o assunto que pode ser conferida no seu blog Dispositivos de Visibilidade. Durante minha pesquisa de mestrado, Cooperação e Controle na rede: Um estudo de caso do website Slashdot.org, eu me aprofundei nessa matéria porque percebi que mesmo ali, naquele site colaborativo, eu podia observar um certo controle distribuído.

A base para desenvolver minha argumentação foi o pensamento de Foucault sobre o poder como algo feito de relações de força, que não operam de forma unilateral, mas sim como uma tecnologia que varia em diferentes momentos históricos. Para não me alongar muito aqui no conceito, vou direto analisar como é a forma dessa tecnologia na atualidade.

Ao contrário do que pensa o senso comum, a vigilância contemporânea é bem diferente daquela imaginada por George Orwell no seu livro Big Brother. Não existe um poder central que a tudo controla, para o qual nenhum ato escapa. O que há de fato é uma ampla tecnologia de captação dos mais variados dados e das mais diversas maneiras – através do uso do cartão eletrônico; da navegação na Internet; dos telefones móveis; dos aparelhos de GPS etc. etc. Algo bem próximo do que mostra o filme Minority Report, de Steven Spielberg (tirando os precogs, e toda a teoria da conspiração, claro). Hoje por exemplo, já podemos ser avisados por nossos aparelhos móveis das promoções de lojas quando entramos num shopping, por exemplo. Estamos sendo rastreados…

O interessante é perceber que essa monitoração de dados se dá cada vez mais de uma forma participativa. Nós cedemos nossos dados pessoais em troca das vantagens que isso nos oferece. Ao fornecer dados para os sites a fim de podermos acessar mais informações. Ou ao permitir que nossos movimentos sejam registrados para que possamos usufruir das funcionalidades dos aparelhos de geolocalização, como os GPSs. O casal Nardoni, acusado de matar a menina Isabella, não imaginava que aquela engenhoca que ajuda a circular pela cidade fosse uma das provas centrais da acusação contra eles, por ter registrado exatamente o horário em que desligaram o carro na garagem, derrubando a versão deles sobre aquela noite.

Já o Wikileaks aponta para um outro aspecto dessa vigilância distribuída que é a possibilidade de se vazar quaisquer dados, seja por sua vulnerabilidade à perícia dos hacktivistas, seja pela colaboração de um soldado americano. Na rede, já não é possível assegurar o sigilo. E estamos vendo o que isso representa para os ocupantes dos cargos de poder, que ainda não estão preparados para o novo paradigma da vigilância. Vivemos tempos de grandes transformações. Essa é mais uma delas, e talvez uma das mais significativas, porque representa também a exigência de uma profunda mudança no modelo de transparência adotado pelos governos.

E não há como frear essa pressão, nem mesmo tirando o Wikileaks do ar ou prendendo Julian Assange. Assim como os outros fenômenos da comunicação pela rede que tentaram ser contidos (vide Napster ou quebra do padrão de criptografia AACS), a tendência é que outros assumam a liderança e a informação se replique sem parar pela rede. A ideia nova foi lançada, não há mais como dispensá-la, pois sempre haverá alguém disponível para continuar, e até mesmo expandir, o projeto.

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