Arquivo do mês: outubro 2011

A ciência e a propriedade intelectual

Há algumas semanas publiquei um post falando sobre o novo modelo de produção científica que está emergindo, o Open Science, que se inspira no modelo de produção aberta do software livre. Com esse método colaborativo, a ciência progrediria mais rápido na medida em que os avanços das pesquisas estivessem disponíveis para que todos os cientistas pudessem dar mais um passo adiante. Você pode ler o texto aqui.

Pois hoje vou falar de uma questão diretamente relacionada a essa, que é a do obstáculo da propriedade intelectual para o avanço da ciência. Esta semana, li um artigo do professor Ladislau Dowbor, no qual ele conta um caso surreal: depois de publicar em uma revista internacional, ele foi informado que teria que pagar caso desejasse ter acesso ao seu próprio texto (!?!). Ele então argumenta, com toda a razão, que isso é um desestímulo à criatividade. E que, muito pelo contrário, o maior estímulo que ele poderia ter para continuar produzindo seria saber que suas ideias estariam circulando o mais amplamente possível e assim contribuindo para novas pesquisas.

O professor lembra que grandes instituições internacionais de pesquisa estão adotando modelos abertos de divulgação de sua produção. É o caso do MIT, o principal centro de pesquisa dos Estados Unidos, que adotou o modelo OCW (Open Course Ware), que libera o acesso do público, gratuitamente, a toda a sua produção científica.

Nas suas palavras:
“O potencial da ciência online, do open course, é que eu posso acessar quase instantaneamente o que se produziu em diversas instituições e sob diversos enfoques científicos sobre o tema que estou pesquisando, o que me permite chegar ao cerne do processo: uma articulação inovadora de conhecimentos científicos anteriormente acumulados. Esta aumento fantástico do potencial criativo que o acesso permite é que importa, e não o fato de ser gratuito.”

O acesso aberto à produção científica é muito mais do que simplesmente um novo modo de circulação da informação adaptado às tecnologias computacionais. Representa o incentivo à mais ampla produção cooperativa na área da ciência, que por sua vez significa a possibilidade de se alcançar de forma muito mais econômica e rápida os avanços que a humanidade necessita. Se pensamos nos desafios no campo da Saúde, isso é algo imprescindível. E, por outro lado, como lembra Dowbor, o atraso poderá nos custar muito caro.

Leia o artigo do professor Ladislau Dowbor na Carta Maior.

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Novas formas de produção e distribuição de cultura

Tenho escrito aqui no blog sobre as mudanças que a comunicação digital traz para a circulação da cultura na sociedade.

Este vídeo, produzido pelo canal Futura, faz um levantamento bem interessante dessa questão, com espaço para diversas visões sobre o assunto.

Entre os temas abordados, o site colaborativo Overmundo, objeto da minha pesquisa; o crowdsourcing, ou modelo distribuído de financiamento de cultura; o fenômeno do tecnobrega no Pará; e também a polêmica sobre a pertinência da atual legislação de Direito Autoral.

Sobre isto, destaco a declaração de Ronaldo Lemos: “O direito autoral brasileiro se divorciou da realidade”. Isto é, a legislação não dá mais conta das transformações nas formas de produção e circulação da cultura na sociedade.

Um bom resumo do impacto da passagem do analógico para o digital na área cultural.

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Sobre o legado (positivo e negativo) de Jobs

Sim, logo que soube da morte de Steve Jobs, um dos criadores da Apple, naquele final de tarde na última quinta-feira, eu me comovi. Pensei em toda a luta que ele travou contra a doença e na diferença que ele fez na história da informática. Não há dúvida de que as inovações que criou e/ou implantou definiram em grande medida a interface da computação pessoal, tornando-a mais amigável para o usuário comum.

Logo em seguida, naquele mesmo dia, alguém postou no Twitter o link do vídeo do discurso que ele fez na Stanford University. Eu não tinha visto ainda, vi e compartilhei. Uma bela fala dizendo basicamente que o importante é você seguir seu coração já que a vida pode ser tão incerta.

Assista ao vídeo.

Ok. Aquele era um momento de comoção e eu me deixei levar pela onda. Acho que a morte sempre faz isso, mitifica um pouco os que se vão, especialmente os que vão mais cedo. Mas passado algum tempo, é preciso contextualizar a obra de Jobs para poder colocá-lo no lugar que ele merece estar e não além disso.

Porque se suas inovações representaram uma melhoria na usabilidade das máquinas, o seu conceito de informática prejudicou muito o projeto pela manutenção de uma rede aberta e livre para trocas.

Richard Stallman, como sempre corajoso, foi um dos primeiros a desafinar o coro dos elogios a Jobs com uma declaração bastante forte:

“Eu não estou contente por ele estar morto, mas estou feliz porque ele se foi. Ninguém merece ter que morrer – nem Jobs, nem Sr. Bill (Gates), nem mesmo as pessoas culpadas por males maiores que os deles. Mas todos nós merecemos o fim da influência maligna de Jobs na computação pessoal.”

Talvez nem todos saibam que os produtos Apple tem uma tecnologia fechada, não só porque o sistema operacional é proprietário, assim como o Windows, mas muito mais do que isso, suas máquinas são muito mais controladas pelo fabricante. Por exemplo, é quase impossível desenvolver um aplicativo por conta própria e simplesmente rodar num Ipad, sem autorização da Apple. Talvez um exímio hacker possa conseguir esse tipo de feito, mas isso seria só um desvio na curva, não um padrão.

Ao contrário do que acontece com os outros computadores pessoais (PCs), que permitem o desenvolvimento de um sem número de aplicativos para as mais diversas funções. Por conta dessa abertura foi possível criar, entre outras coisas, a própria web tal como a conhecemos e também as redes peer-to-peer através das quais milhões de pessoas compartilham conhecimento e cultura. Nesse ambiente, não existe um limite para a inovação e também não existem direções pré-determinadas sobre o que deve ser implementado e como. A inovação vem da própria multidão de pessoas que povoa a rede e quer ampliar suas capacidades de comunicação e troca.

A diferença é que Jobs foi um especialista em criar equipamentos fantásticos e esteticamente maravilhosos para guiar os consumidores pelos caminhos do consumo, fechados e pré-determinados. Foi ele quem conseguiu implantar o modelo mais eficiente de venda de música pela Internet. Foi o mais competente em fazer da Internet um jardim murado, um lugar de caminhos de circulação e consumo controlados e pré-estabelecidos.

No entanto, a Internet é e deve ser muito mais do que isso: um espaço aberto e livre para a mais ampla troca entre as pessoas conectadas ao redor do planeta, que podem por sua vez criar mais e novas invenções para enriquecer o comum. Também não é o resultado da inspiração de um ou poucos gênios mas, ao contrário, é a soma das contribuições de uma multidão. Não é e não deve ser um produto para a venda, mas muito mais que isso: um recurso moldado pela colaboração e disponível para a partilha.

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