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Autoria peer-to-peer: o caso Overmundo

Acabo de voltar de Portugal, onde participei do simpósio Acta Media XI com duas apresentações. Uma delas, em Coimbra, foi sobre o que denominei de autoria peer-to-peer, tendo o website Overmundo como exemplo.

O conceito de peer-to-peer vem sendo pensado para falar de produções atuais baseadas na livre cooperação, que seriam um terceiro modo de produção, diferente tanto do capitalista, orientado pelos interesses do mercado, como do encontrado em regimes socialistas, dirigido pelo estado.

Entre suas características estão a participação equipotencial, isto é, a não exigência de credencial para participar. Outro diferencial é a validação feita coletivamente, na qual a filtragem se dá a posteriori e não como uma barreira de entrada. Podemos pensar aí no jornalismo open publishing, que se opõe à editoria centralizada e hierarquizada da imprensa tradicional.

Importante também é o modelo de administração da produção, feita pela própria comunidade, com um tipo de autoridade horizontal que se baseia na reputação e no mérito. Por último, o bem produzido é disponibilizado livremente em regime de propriedade comum.

A enciclopédia colaborativa Wikipédia e o sistema operacional GNU/Linux são os exemplos paradigmáticos da produção peer-to-peer, ambos disponibilizados como um bem comum amparados em licenças livres para impedir sua apropriação privada.

Em minha fala, refleti sobre alguns aspectos dessa produção colaborativa, em diálogo com outros pesquisadores, tendo como referência o pensamento de Michel Focault.

Abaixo, para quem se interessar, os slides da apresentação.

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Novas formas de produção e distribuição de cultura

Tenho escrito aqui no blog sobre as mudanças que a comunicação digital traz para a circulação da cultura na sociedade.

Este vídeo, produzido pelo canal Futura, faz um levantamento bem interessante dessa questão, com espaço para diversas visões sobre o assunto.

Entre os temas abordados, o site colaborativo Overmundo, objeto da minha pesquisa; o crowdsourcing, ou modelo distribuído de financiamento de cultura; o fenômeno do tecnobrega no Pará; e também a polêmica sobre a pertinência da atual legislação de Direito Autoral.

Sobre isto, destaco a declaração de Ronaldo Lemos: “O direito autoral brasileiro se divorciou da realidade”. Isto é, a legislação não dá mais conta das transformações nas formas de produção e circulação da cultura na sociedade.

Um bom resumo do impacto da passagem do analógico para o digital na área cultural.

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A evolução do modelo editorial distribuído do Overmundo

Neste post vou analisar brevemente o modelo editorial distribuído do Overmundo, no qual o público participante, formado por cerca de 40 mil colaboradores inscritos, não apenas produz o conteúdo, mas também define os destaques na sua página principal, através de voto.

O Overmundo é um dos mais bem-sucedidos projetos colaborativos na internet brasileira. Atualmente, de acordo com dados da AdPlanner, ferramenta da Google de mensuração de tráfico na Internet, o site tem em média 700 mil visitantes únicos por mês. O interessante é observar como esse modelo evoluiu, com avanços e recuos, num processo construído através de sua adequação à atuação da comunidade.

No início, cada contribuição deveria passar obrigatoriamente por duas filas, permanecendo em cada uma delas por 48 horas: a fila de edição, onde poderia receber comentários, sugestões e críticas, a partir das quais poderia ser aperfeiçoada; e pela fila de votação, na qual seria submetida à avaliação, através de votos dos demais membros registrados da comunidade. Somente aqueles que recebessem mais de 20 votos seriam publicados na parte mais visitada do website (página principal e páginas das seções overblog, banco de cultura, guia e agenda). Os demais teriam sua colaboração publicada apenas na área do perfil de seu autor, portanto, com quase nenhuma visibilidade. Já os mais votados obtinham destaque na primeira página, com status de matérias principais.

Nesta primeira fase, a votação funcionava da seguinte maneira: cada participante, depois de entrar com sua senha no sistema, tinha o direito de votar uma vez em cada contribuição e seu voto equivalia a um overponto (nome dado à unidade de pontuação do website). A soma dessa pontuação é que definia a relevância ou não da contribuição, tanto para ser publicada como para ser destacada na página principal. Este destaque, por sua vez, era modulado por um algoritmo que combinava os votos recebidos com o tempo em que o texto estava publicado no site: quanto mais votos, mais destaque; quanto mais tempo, menos destaque. Esta foi a maneira encontrada para garantir, por um lado, o destaque das mais votadas, por outro, a renovação constante do conteúdo.

Pouco tempo depois veio a novidade: a implantação de um sistema de reputação chamado karma, que media o nível de participação de cada um de acordo com algumas variáveis: o número de vezes em que votava em colaborações de outros; os votos que recebia em suas próprias colaborações; os comentários que fazia a outras contribuições etc. Esse monitoramento era revertido em pontos e premiava os mais atuantes dando-lhes maior poder dentro da comunidade. A proposta era mesmo a de se criar uma hierarquia, destacando os mais comprometidos com o projeto, que pudesse garantir uma maior qualificação e representatividade do conteúdo publicado. Uma validação coletiva e distribuída, na qual a atuação de alguns, mais dedicados, teria mais peso do que a da maioria.

Segundo esse sistema, o karma de cada integrante da comunidade poderia variar de 1 a 10, número que correspondia ao peso de seu voto. Por exemplo, um colaborador muito atuante, que tivesse karma 10, somaria 10 overpontos a cada voto. Já o voto de alguém menos atuante, com karma 1, representaria apenas um overponto. Deste modo, criou-se uma elite entre os participantes, com maior poder, ou autoridade, para definir a relevância das colaborações. Não há dúvida de que o critério escolhido para dar maior peso à atuação de alguns, por seu comprometimento com o projeto, é em tese bastante justo. No entanto, esse sistema, com um modus operandi muito similar a um jogo, acabou gerando problemas na comunidade. Muitos encararam o processo como um jogo competitivo, atuando muito mais para somar pontos do que para contribuir com a qualidade do conteúdo. Além disso, acentuou ainda mais a ação de panelinhas, grupos fechados que chegavam a dominar o processo editorial, fazendo com que suas colaborações fossem sempre as mais votadas, em detrimento da proposta editorial de se abrir espaço para a divulgação da diversidade da cultura brasileira – o objetivo do projeto.

Depois de três anos de existência, em abril de 2009, decidiu-se fazer uma série de mudanças no modelo de publicação do projeto, em resposta às solicitações da comunidade e também às dificuldades encontradas para administrá-lo nos moldes anteriores. Somado aos problemas da competição pelo karma e das panelinhas, havia a reclamação dos participantes em relação à demora da publicação dos textos, que tinham que aguardar por 96 horas, nas filas de votação e edição, algumas vezes correndo o risco de perder sua atualidade. Paralelamente, o próprio sistema de votação, se por um lado contribuía para destacar o conteúdo mais relevante, por outro acabava por excluir boa parte das contribuições, que não alcançavam a pontuação mínima exigida, ao jogá-las para a publicação apenas no perfil, com visibilidade praticamente zero.

Assim, desde então, o modelo editorial foi bastante simplificado. Todas as colaborações passaram ser publicadas imediatamente nas respectivas áreas editoriais (overblog, banco de cultura, guia e agenda), ou, opcionalmente, podem ir para a fila de edição, onde permanecem por 48 horas para receberem sugestões e críticas. As contribuições continuam recebendo votos, mas agora só com objetivo de dar destaque na interface aos mais votados. O sistema de karma acabou e a pontuação voltou ao modelo inicial: o voto de todos os participantes passou a ter o mesmo peso, isto é, um. Segundo a equipe que administra o projeto, o objetivo das mudanças foi garantir, e privilegiar, a fruição das colaborações e a interação criativa em torno delas.

Este relato é interessante pois possibilita ver como se deu a dinâmica entre a proposta inicial de um projeto editorial colaborativo e distribuído e sua adequação à reação da comunidade. A atuação dos participantes foi indicando os melhores caminhos a seguir e, paralelamente, seus conflitos obrigaram a fazer ajustes para não se perder de vista o objetivo principal que, neste caso, é a divulgação da cultura brasileira. Sendo assim, optou-se por um filtro inicial muito mais frouxo: todas as colaborações são publicadas. No novo modelo, a qualificação do conteúdo, em tese, diminui, pois tudo se iguala na medida em que não há mais o corte de entrada. No entanto, ainda é possível dar relevância, separar o joio do trigo, oferecendo destaque na interface aos mais votados. Se o modelo do karma, apesar de bem intencionado, não apresentou os resultados esperados, seja por não garantir a qualidade do conteúdo, seja por gerar muitos conflitos na comunidade, a decisão de eliminá-lo parece ter sido acertada. E, por outro lado, se o objetivo maior do projeto é assegurar a ampla divulgação da produção cultural brasileira, o modelo atual, mais aberto, é também mais democrático, podendo atender melhor ao seu propósito.

É louvável ver a inteligência e flexibilidade da equipe por trás do projeto, que não se acomodou frente às dificuldade, ao contrário, foi operando mudanças buscando alcançar seu objetivo e, ao mesmo tempo, investindo na evolução de um modelo editorial realmente colaborativo.

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