Arquivo do mês: junho 2011

Balanço de (quase) um ano do blog. E férias!

Mês que vem este blog faz um ano. Por coincidência, será o mês em que vou sair de férias, aproveitando que termino meu estágio aqui em Portugal. Será, portanto, um mês de descanso para o blog também.

É um bom momento, então, para fazer um pequeno balanço deste espaço aqui. Meu objetivo ao criá-lo, como pode ser lido na apresentação ao lado, era poder divulgar minha pesquisa e encontrar interlocutores. Mas não só isso. Eu queria também testar o meu próprio tema de estudo – a autoria colaborativa na rede.

Considero que a experiência foi muito bem-sucedida. Em primeiro lugar, me possibilitou sair daquela condição característica de quem escreve uma tese – a solidão ou o isolamento – que ocorre tanto pela dedicação que o estudo exige e também pela especificidade de cada pesquisa. Não é fácil encontrar pessoas com interesses comuns.

Pois colocando minhas reflexões na rede pude entrar em contato com outros pesquisadores, vários dos quais provavelmente eu não viria a encontrar em outros ambientes. Especialmente pessoas da área de Letras envolvidas com questões bem semelhantes às minhas.

De fato, não faria muito sentido fazer uma pesquisa sobre a comunicação em rede e não estar presente nela, trocando ideias e experimentando suas potencialidades e limitações.

O mais interessante pra mim é que se construiu aqui, sem dúvida alguma, um processo de autoria colaborativa. Basta ler as dezenas de comentários para constatar o quanto muitos deles enriqueceram a discussão que eu propus, com mais referências e também outros olhares.

No próximo semestre gostaria de tentar incrementar a proposta de escrita coletiva wiki, que ainda não decolou. Vou fazer uma chamada mais direta, talvez em agosto ou setembro. Tomara que também consiga uma boa participação.

Fico por aqui. Em agosto estou de volta!

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Arquivado em Apresentação, Tese

Linguagem digital e automação

Um dos tópicos que estou estudando atualmente é a característica autômata do meio digital. Como pesquiso a autoria em rede, este é um dos elementos que não posso deixar de considerar já que ele está presente nas mais simples operações da escrita eletrônica. Agora mesmo, enquanto digito este texto, o programa não para de me apresentar opções de palavras para eu escrever, numa espécie de interação autoral entre mim e a máquina.

Para começar a entrar no tema, encontrei referências no trabalho do pesquisador russo Lev Manovich. O pensamento dele é bastante interessante porque também está ancorado na ideia de que que a linguagem das mídias é formada a partir da herança de traços de mídias anteriores. E eu já vinha trabalhando com essa noção, a partir do conceito de remediação de Jay Bolter e Richard Grusin, como já postei aqui.

Ele argumenta que no processo de desenvolvimento das novas interfaces culturais são empregados elementos de linguagens já conhecidas, o que faz parte do processo de apropriação das novas linguagens através do reconhecimento de traços de sua estrutura. Assim cita, por exemplo, como a interface da página, uma superfície retangular com uma quantidade limitada de informação, tem sido a referência cultural de leitura há séculos, desde o códice até as telas eletrônicas. Em suas palavras, “as novas mídias podem ser compreendidas como o mix de antigas convenções culturais de representação, acesso e manipulação de dados e convenções mais recentes de representação, acesso e manipulação de dados”.

Em sua análise sobre os princípios das novas mídias, identifica cinco tendências gerais que marcariam a passagem para a cultura digital, que são: representação numérica; modularidade; automação, variabilidade e transcodificação. Me deterei na análise das três primeiras, que se relacionam mais diretamente com minha pesquisa sobre autoria colaborativa em meio digital, já que a possibilidade da participação da máquina no processo de produção textual, sem dúvida, desestabiliza de vez a noção que temos de autoria como algo individual e até mesmo humano.

O princípio de representação numérica constitui a base da linguagem digital. Para o computador, todo o tipo de informação, sejam textos ou imagens, é um código digital, uma composição binária de 0 e 1. Este primeiro princípio permite a existência do segundo: a modularidade, chamada de estrutura fractal da mídia, isto é, a manutenção da mesma estrutura em diferentes escalas do objeto, sejam elas caracteres, pixels ou scripts, que continuam a manter sua identidade no todo e nas partes. Esta segunda propriedade das mídias digitais permite também a variada combinação de elementos que permanecem independentes, podendo ser alterados enquanto tal. Um exemplo é a própria página web, composta de diversos elementos – textos, imagens, vídeos, animações etc. – articuladas de forma modular. Estas duas tendências conferem uma grande maleabilidade a todo dado digital, seja uma foto ou um poema, que pode receber intervenções amplas ou pontuais, das mais diferentes naturezas – cor, brilho, resolução, entre outras, em uma imagem; tamanho, estrutura, movimento, entre outras, no texto.

Uma das possibilidades abertas pelos dois primeiros princípios é a da terceira tendência – a automação, que representa a intervenção direta e autônoma do computador na produção em meio digital. Um exemplo é a atuação dos chamados bots no processos editoriais da Wikipédia. Atualmente eles são responsáveis por significativa parte das edições da publicação, variando de 10%, na versão japonesa da enciclopédia a 30%, na francesa. Sabemos que há atualmente na versão em língua inglesa da enciclopédia nada menos do que 685 programas robôs em ação e 180 na versão lusófona. Suas tarefas são de natureza mecânica com duas funções básicas: editorial, isto é, apagar ou criar páginas, conferir interlinks etc; e de vigilância, ou seja, detectar, apagar e denunciar a ação de spam e de vandalismo. Pode-se analisar esses dados entendendo a atuação dos robôs como um tipo de prótese cognitiva/operacional, capaz de reconhecer erros e de consertá-los.

Isso faz pensar no papel da máquina no processo autoral. Ou, em outras palavras, é possível conceder o status de autor ao computador? Este tema, sem dúvida, rende uma longa discussão que vou deixar para outro post.

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Arquivado em Autoria maquínica, Escrita Digital, Linguagem Digital

História da cultura digital brasileira

Posto aqui mais um vídeo que mostra a vitalidade da política cultural do governo Lula, nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira.

Neste aqui, produzido por Cardes Amâncio da Avesso Filmes, a ênfase é na cultura livre: a livre circulação dos bens intelectuais e a possibilidade de todos serem também produtores de cultura. Potencializando, assim, a formação de uma multidão de agentes criadores, e críticos, que coloca em xeque os antigos modelos de comunicação e produção cultural centralizada.

A ideia de produzir este vídeo surgiu no Fórum de Cultura Digital de 2010, como uma forma de registrar a história da cultura digital brasileira. Além dele, com a mesma proposta, foram produzidos mais quatro vídeos, entre eles o Remixofagia já postado aqui no blog.

Conheça os demais clicando aqui.

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Arquivado em Cultura livre, MinC, Política cultural

Mais referências sobre o Remix

Como já disse em outro post, um dos objetivos ao criar este blog foi o de encontrar interlocutores, especialmente pesquisadores que também estivessem interessados na questão das transformações dos processos autorais da atualidade.

Outro objetivo era tentar construir aqui um tipo de processo co-autoral feito dos meus posts mais os comentários dos visitantes, que pudesse ser visto como uma produção discursiva colaborativa. Queria ver se e como isso seria possível.

Pois bem, perto de completar um ano, posso dizer que o blog atingiu esses objetivos. Basta ler os diversos posts pra constatar em muitos deles comentários ricos em informações adicionais que, sem dúvida alguma, ampliaram o conteúdo dos textos originais.

Um dos temas que foi em grande parte trazido por essa interação foi o do Remix. Um assunto totalmente relacionado com o fenômeno dos novos processos autorais presentes nas redes de comunicação, mas que não é objeto da minha pesquisa atual. Portanto, um tema inserido na discussão mais ampla que eu proponho, mas que eu não daria conta de abordar sozinha.

Grande parte das contribuições de referências sobre esse tema foi postada por Reynaldo Carvalho, que está terminando o doutorado na UnB sobre a reescritura na pós-modernidade e na cultura remix e tem sido um de meus mais constantes interlocutores no blog. Em seus comentários, ele tem partilhado uma série de dicas sobre o tema, como bibliografia, entrevistas e projetos. Como esta contribuição está registrada em diferentes posts, de forma dispersa, resolvi agrupar boa parte dessas referências para facilitar a pesquisa. Tem mais algumas que já comentei neste post.

Começo com o projeto Ubuweb, citado em alguns comentários. Criado pelo poeta estadunidense Kenneth Goldsmith, em 1996, o site traz poemas, textos, filmes e áudio, incorporados sem autorização dos autores, com base no pressuposto de que as obras são de vanguarda e não têm potencial comercial. Seu acervo de filmes, como diz Reynaldo, é um imenso céu estrelado: de Beckett a Beuys, de Godard a Gary Hill, de Mekas a Mishima, são centenas de obras de artistas do primeiro time da vanguarda internacional de várias épocas.

E, para completar, o link do livro de Kenneth Goldsmith, “Uncreative Writing: Managing Language in a Digital Age”, na Amazon. Infelizmente, não tenho o link do livro pra baixar 😦

Outra dica muito interessante são as entrevistas de Henry Jenkins com Owen Gallagher, coordenador o projeto Total Recut, em duas partes:

“What is Remix Culture?”
Parte Um
Parte Dois

Mais uma referência bacana é o texto do William Gibson, autor do (acho que posso dizer) já clássico livro Neuromancer, intitulado “Confissões de um artista plagiador”.

Vale ainda destacar dois livros citados por Reynaldo (estes, sim, pra baixar):

Imagíbrida: comunicação, imagem e hibridação, organização de Denize Correa Araújo e Marialva Carlos Barbosa. Uma coletânea de artigos que discutem de diversos ângulos o estatuto da imagem híbrida na cultura contemporânea.

Gambiologia, do Mutirão da Gambiarra <http://mutirao.metareciclagem.org>, um coletivo editorial nascido na rede MetaReciclagem que articula publicações colaborativas sobre temas como apropriação criativa de tecnologias, cultura digital experimental e redes colaborativas.

Para quem estuda o tema, vale ainda mencionar os artigos:

Aura e Autoria na Apropriação pós-moderna – um pequeno ensaio comparativo entre Sherrie Levine e Michel Mandiberg, de Ruth Moreira de Sousa

Sobre a Reescritura – 1ª parte – Teoria, de Marissi Passini, do Centro de Estudos Claudio Ulpiano

E, por último, o vídeo Society of Spetcacle (a digital remix)

Façam bom proveito!

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