Arquivo da categoria: Tecnologias da Cooperação

Us Now – documentário sobre P2P

Pesquisando a Economia P2P para a aula que darei no curso “Oito Temas para se pensar a Ciência, a Sociedade e as Redes na Era da Complexidade”, me deparei com o documentário “Us Now”, sobre como a colaboração em massa está transformando os mais variados setores da sociedade.

Os exemplos mostrados são variados: Mumsnet, plataforma na qual mães trocam orientações sobre os mais variados aspectos relativos à criação de seus filhos; Zopa, um banco de empréstimos P2P, com juros mais baixos e laços sociais mais fortes; Couchsurfing, que conecta pessoas que vão viajar com pessoas que podem recebê-las em suas casas, estimulando a troca cultural além do turismo; Ebbsfleet, um time de futebol britânico que deixa que seus torcedores decidam as estratégias do jogo etc.

A partir do caso do processo de decisão participativo experimentado pelo Ebbsfleet, o vídeo explora as possibilidades do emprego desse modelo de gestão na esfera governamental. O escritor e pesquisador Don Tapscott, um dos entrevistados, relata que o Partido Verde do Canadá utilizou a plataforma wiki, na qual os cidadãos puderam incluir sugestões, para desenvolver seu programa de governo colaborativamente.

Outro entrevistado é o professor Clay Shirky, que argumenta que as práticas sociais tradicionais, como ajudar uns aos outros ou fazer coisas juntos, ganharam nova dimensão com o advento da cultura digital, o que tem um extraordinário potencial, ainda muito pouco explorado.

A produção é de 2009 e tem legendas em português. Sabemos que de lá pra cá, o fenômeno da colaboração em massa só fez aumentar. Vale muito a pena assistir.

PS – Este é o primeiro post sobre o tema. Assim que a aula estiver montada, posto aqui os slides com as referências.

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Cooperação e controle na rede

A relação entre a cooperação e o controle na cibercultura foi a discussão central da minha pesquisa de mestrado “Cooperação e controle na rede: um estudo de caso do website Slashdot.org”, junto ao PPGCOM da ECO/UFRJ.

Tendo como objeto de estudo o website Slashdot.org, pensei a cooperação na rede como um legado da cultura hacker, que com suas práticas colaborativas transformou um projeto de pesquisa tecnológica de interesse militar em um meio de comunicação e interação social, além de território de luta pela definição do estatuto da informação e do conhecimento como um bem comum.

Por outro lado, refleti sobre as novas configurações do controle na atualidade, tendo como referência o pensamento de Michel Foucault sobre o poder como positividade. Isso porque percebi, no modelo de comunicação do site, um tipo de controle distribuído de viés colaborativo.

Recentemente, tive a oportunidade de abordar de novo esse tema ao publicar o artigo “Cooperação e controle nas dinâmicas de auto-organização em plataformas colaborativas”, no dossiê temático Práticas Colaborativas entre a Participação e o Controle da Revista Eptic Online, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e editada pelo Observatório de Economia e Comunicação (Obscom) da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Leia o resumo do artigo:

As plataformas colaborativas auto-organizadas têm demonstrado qualidade e vitalidade. Com dinâmicas produtivas geridas de forma distribuída pelo coletivo de participantes, esses projetos têm sido espaço de experimentação de tecnologias de cooperação, isto é, de instrumentos criados a fim de viabilizar sua sustentabilidade. Neste artigo, abordamos alguns aspectos dessas tecnologias, especialmente os mecanismos de controle participativo empregados para assegurar a evolução positiva da produção colaborativa. Num primeiro momento, apresentamos a visão de Michel Foucault sobre o poder como positividade para, em seguida, explorar a configuração do controle na atualidade. Abordamos, então, o papel do monitoramento nas estratégias de cooperação em rede, sob inspiração dos estudos de Elinor Ostrom. Por último, apresentamos o caso do website Slashdot, como exemplo de articulação entre esses dois vetores.

Clique aqui para acessar o artigo.

Recomendo a leitura da edição completa da revista, que traz neste número artigos e entrevista muito atuais sobre temas relevantes como Marco Civil, vigilância e privacidade, entre outros.

Clique aqui para conferir o índice completo desta edição da Eptic Online.

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A auto-gestão do comum

Neste post vou abordar brevemente outra obra de interesse para os estudos de cibercultura: o livro Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action, de Elinor Ostrom (1933-2012), cientista política norte-americana, ganhadora do Prêmio Nobel de Economia em 2009.

Clique aqui para baixar o livro.

Ostrom se dedicou ao estudo da ação coletiva na gestão de recursos comuns, com ênfase nas estratégicas de auto-organização. Neste livro seminal, ela aborda casos de governança de bens comuns como, por exemplo, o manejo da pastagem no Japão e na Suíça e os sistemas de irrigação em comunidades das Filipinas, a fim de identificar práticas e critérios que favoreceram sua sustentabilidade.

Na sua visão, o sucesso na auto-gestão de comunidades cooperativas depende de alguns princípios norteadores, entre eles:

1. Limites claramente definidos da comunidade envolvida;
2. Regras claras sobre apropriação e provisão de recursos comuns, adaptadas às condições locais;
3. Acordos coletivos que permitem que a maioria participe do processo de tomada de decisão;
4. Monitoramento do comportamento dos participantes;
5. A escala de sanções graduais para quem viole as regras comunitárias;
6. Mecanismos de resolução de conflitos de fácil acesso.

Em minha pesquisa de mestrado, na qual analisei o website Slashdot, recorri aos seus estudos para pensar a auto-organização daquela comunidade virtual. De fato, pude observar ali a existência da maioria dos princípios elencados por Ostrom. Na época, o que mais me chamou a atenção foi identificar um sistema de monitoramento distribuído na gestão de uma comunidade hacker baseada na colaboração. Sua obra me ajudou a perceber o papel do controle para o sucesso da cooperação. Daí me veio o título da dissertação: “Cooperação e Controle na rede: um estudo de caso do website Slashdot.org.

O importante a ressaltar é como sua obra pode servir a projetos e experiências de auto-organização na gestão de bens comuns, no ambiente virtual ou físico, como uma orientação para se pensar em estratégias para a sustentabilidade dessas iniciativas.

Para conhecer um pouco mais do pensamento de Elinor Ostrom, vale assistir a esta entrevista, concedida em 2010, ao programa Sem Fronteiras.

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“Juntos” – sobre a complexidade da cooperação

O último livro do sociólogo e historiador Richard Sennett trata de um tema caro aos estudos de cibercultura: Juntos – os rituais, os prazeres e a política da cooperação.

Da orelha do livro:

“O autor argumenta que a cooperação é uma arte, e as bases para a cooperação hábil estão em aprender a ouvir bem e avaliar, em vez de duelar verbalmente. Sennett explora como as pessoas podem colaborar on-line, nas ruas, nas escolas, no trabalho e na política local. Delineia a evolução dos rituais de cooperação desde os tempos medievais até o presente, em situações tão diversas como comunidades de escravos, grupos de socialistas em Paris e trabalhadores de Wall Street. Dividido em três partes, o livro aborda a natureza da cooperação, por que esta se tornou débil, e como poderia ser reforçada. Sennett adverte que devemos aprender a arte da cooperação se quisermos que a nossa sociedade – individualista e competitiva – prospere, e nos assegura que somos capazes disso, pois a faculdade de cooperação faz parte da natureza humana.”

Na parte em que trata mais diretamente da comunicação eletrônica, Sennett conta que participou de um grupo de testes de trabalho com o Google Wave, programa concebido especificamente para a cooperação on-line. Seu relato ajuda a entender por que, afinal, o projeto fracassou.

O grupo do qual participou reunia diferentes profissionais espalhados por diversos países europeus com o objetivo de levantar informações e criar políticas para a questão da migração para Londres. Com o passar do tempo, no entanto, as interações on-line esfriaram e eles acabaram preferindo agendar encontros pessoais para avançar nas discussões.

Na análise de Sennett, a interface do Google Wave não contemplava a complexidade da comunicação pois inibia visualmente os pensamentos fora da caixa e as intervenções casuais, aparentemente irrelevantes, mas que tinham o potencial de trazer inputs originais à conversa.

Assim, as razões do fracasso tem a ver com o mau entendimento da comunicação e da cooperação. O programa confundia partilha de informações com comunicação, que engloba também formas mais sutis de expressão como a sugestão e a conotação.

Para ele, isso não é um problema exclusivo do Google Wave, mas está presente em vários outros softwares. Isso porque os desenvolvedores acreditam que um modelo dialético dará conta da comunicação e não avançam em recursos dialógicos, o que acaba por inibir a cooperação.

Bom, isso é só uma palinha do conteúdo do livro. Para quem quiser entender mais a fundo a complexidade da comunicação humana, fica aí a dica de excelente leitura.

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Plataformas para democracia direta

Existe um ponto em comum entre as diversas bandeiras levantadas nas manifestações por todo o País: a demanda por uma maior participação da sociedade nas decisões governamentais. Ao mesmo tempo, não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo, assistimos ao esgotamento da democracia representativa. O recado das ruas é claro: é preciso avançar em direção a um modelo político mais participativo.

Hoje as tecnologias eletrônicas de comunicação permitem a criação de plataformas de participação direta. Com a articulação de metodologias sociais e configurações técnicas é possível conceber sistemas digitais capazes de receber, fazer circular, filtrar e encaminhar propostas de gestão social construídas coletivamente. Plataformas que viabilizem uma radicalização da democracia, servindo de canal para a expressão da vontade popular e, posteriormente, de sua sistematização em políticas públicas.

Não é necessário partir do zero para se pensar em um sistema assim. Uma experiência de tecnologia social que pode servir de inspiração é a do Orçamento Participativo, implementado pela Prefeitura de Porto Alegre nos idos de 1989. Resumidamente, sua metodologia consiste em colocar em debate público a definição das prioridades de investimento no município, através da realização de assembleias em diferentes bairros ou distritos. A iniciativa mais tarde se estendeu a dezenas de cidades brasileiras e também chegou ao exterior, em cidades como Montevidéu, Caracas, Buenos Aires e Lisboa.

Leia mais sobre o Orçamento Participativo

Outra referência importante são as consultas à população através de plataformas digitais. Uma iniciativa importante, neste sentido, foi a realização da Consulta Pública aberta pelo Ministério da Cultura para a Revisão da Lei de Direito Autoral. Promovida entre 14 de junho e 31 de agosto de 2010, recebeu cerca de oito mil propostas da sociedade civil, que depois foram sistematizadas em um projeto de lei. Infelizmente, por motivos políticos como já falei neste post, a reforma foi adiada. Até hoje, mesmo com a mudança de ministra, não se sabe ao certo quando e com que texto o projeto será apresentado ao Congresso.

Uma experiência pioneira de maior porte foi a realização do processo constituinte na Islândia com o uso do Facebook e do Twitter, além do site oficial do Conselho Constitucional, como ferramentas para que os cidadãos sugerissem temas, opinassem e participassem colaborativamente da elaboração da mais importante lei do país. Um anteprojeto foi enviado ao parlamento islandês que, no entanto, não o aprovou até o fim de sua legislatura, em abril de 2013. O novo parlamento eleito tem maioria conservadora, de centro-direita, que dificilmente refendará a proposta popular que, entre outras coisas, estabelece que os recursos naturais do país sejam propriedade perpétua da nação.

Leia a entrevista de Eiríkur Bergmann, membro do Conselho Constitucional da Islândia

Leia mais sobre os percalços do processo constituinte na Islândia

Como se vê, o processo político é bem complexo. Mesmo sendo um instrumento valioso para incrementar a participação da sociedade, a tecnologia não é suficiente para garantir a efetiva implementação de políticas mais democráticas. Para isso, ainda não há nada mais eficaz do que a multidão nas ruas exigindo seus direitos.

De toda maneira, as redes de comunicação são um recurso fundamental para a construção de um modelo de democracia direta que possa estar à altura das reivindicações que vêm das ruas. Por isso, acredito, esta é uma das tarefas que se colocam neste nosso momento histórico: o desenvolvimento de plataformas digitais para a elaboração participativa de políticas públicas.

Este post é uma garrafa lançada ao mar em busca de outras referências e, principalmente, de parceiros e interlocutores que queiram pensar mais sobre essas tecnologias.

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Tecnologias da cooperação

Uma das vertentes de minhas pesquisas, desde o mestrado, é o estudo das tecnologias de cooperação, isto é, dos instrumentos que têm sido criados para gerenciar a qualidade nos ambientes colaborativos.

Tenho trocado ideias sobre este tema com o Carlos Nepomuceno, jornalista e consultor especializado em estratégia no mundo digital. Assim como eu, ele está interessado em pensar a nova dinâmica da comunicação distribuída e as formas de administrar as interações em rede.

Conheça o blog do Nepô.

Na última sexta-feira, dia 7 de junho, eu participei do hangout que ele promove regularmente. Conversamos sobre vários tópicos, passando pelas tecnologias de cooperação e por meus estudos sobre o website Slashdot, a Wikipédia e a autoria em rede, entre outros assuntos.

Quem tiver curiosidade, pode conferir aqui o vídeo da conversa:

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Interfaces colaborativas – propostas, problemas, perspectivas

Na semana passada dei uma entrevista para o blog do Carlos Nepomuceno, jornalista e consultor para o mundo web. Entre outras coisas conversamos sobre interfaces colaborativas, especialmente sobre como ainda é difícil para os grandes jornais lidarem com as interações do público como algo que possa gerar valor. De um modo geral, os comentários são vistos como um mal necessário, algo que se aceita receber para se obter uma “cara” de jornalismo colaborativo, mas que de fato é encarado como um refugo, e não como conteúdo.

O tema veio à tona por conta de minha dissertação de mestrado, sobre o modelo de mediação auto-organizado do Slashdot. O site funciona como um fórum de discussão sobre notícias ligadas ao universo hacker – tecnologia, games, liberdade na rede, Open Source e Software Livre, etc. Cada um desses fóruns recebe centenas de comentários que são avaliados pela própria comunidade do site através de votação que resulta num ranking que vai de -1 até 5. Dessa forma, auto-organizada, as interações passam por um filtro que destaca o melhor das contribuições. Outro componente deste modelo de mediação colaborativo é o sistema chamado de karma, que pontua cada membro da comunidade de acordo com sua atuação, e oferece algumas vantagens para os mais bem pontuados.

O problema desse sistema, que eu analisei na minha pesquisa, é que os critérios para esta avaliação acabam sendo marcados por uma espécie de pensamento de grupo, isto é, tendem à homogeneidade. Em outras palavras, comentários discordantes do ideário hacker – por exemplo, um que defendia a superioridade do sistema operacional Windows em uma situação específica – são avaliados como negativos e tendem a perder visibilidade na interface. Se quiser conhecer o estudo de caso em mais detalhes, baixe aqui a dissertação.

A experiência do Slashdot serviu de inspiração para muitos outros projetos colaborativos, entre eles o brasileiro Overmundo. Como já analisei em outro post, depois de algum tempo foi preciso reformular o modelo porque o sistema de karma passou a gerar problemas de alta competição na comunidade e a fortalecer ainda mais as panelinhas existentes. Abandonou-se então essa pontuação dos participantes e optou-se por um sistema mais aberto onde todas as colaborações sejam publicadas nos espaços mais nobres do portal. Dessa forma, foi possível chegar mais perto do objetivo do projeto que é divulgar a diversidade da produção cultural brasileira.

Sistemas auto-organizados de valoração têm sido largamente usados nos mais variados projetos de sites, como o Mercado Livre, para avaliar a reputação dos vendedores; o Digg, para ranquear as notícias; e ainda nos comentários do Youtube, para destacar os mais interessantes.

Neste ponto, eu volto ao início: por que os jornais online não aproveitam melhor desses sistemas para dar relevância aos comentários? É certo que uma equipe de jornalistas teria muita dificuldade em acompanhar todos os centenas ou milhares de comentários diários em um site como o Globo Online. Mas, e se passasse esta tarefa para o público? Se os próprios participantes, que estão lendo ou fazendo comentários, votassem naqueles que na sua opinião fossem os mais importantes? O que aconteceria é que teríamos como resultado uma interface muito mais inteligente e interessante, que ofereceria, de forma emergente, um filtro para aquele universo inicialmente caótico de informações.

Esses comentários destacados não só facilitariam a leitura, a área de comentário se transformaria em um espaço mais nobre do que é hoje, mas também poderiam oferecer informações relevantes para os próprios jornalistas – novas pautas ou dados complementares às matérias. Alguns jornais online criaram projetos de participação do leitor com envio de matérias, fotos ou artigos, no estilo cidadão repórter. Mas para entrar de fato na linguagem digital podem ir mais além, aperfeiçoando suas interfaces a fim de torná-las mais dialógicas e inteligentes. Torço para que tenham essa ousadia!

Ouça: Entrevista ao Blog do Nepô, sobre a autoria em rede e as interfaces colaborativas

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