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Do códice ao tablet

Um dos temas que pesquisei na minha tese foi o da linguagem digital. Estudei especialmente o que diferencia este meio como uma tecnologia de suporte ao texto, tendo em vista sua influência ou determinação no surgimento de novas formas de autoria.

Um dos assuntos transversais a essa discussão é o do desenvolvimento de e-books, ou livros eletrônicos, e o que isso traz de mudanças para as práticas de escrita e de leitura.

Alguns dados mostram a relevância dessa questão. Por exemplo, hoje o consumo de livros nos Estados Unidos é predominantemente através do uso de tablets e e-readers. Ao lado disso, milhões de livros estão disponíveis para leitura on-line, como os do Google Book Search.

Por isso, é muito bom saber do lançamento do projeto Transcrever, da produtora Mosaico, que pretende abordar os vários aspectos envolvidos na transposição do texto do meio impresso para o digital:

“Transcrever é um documentário que tem o objetivo de mapear territórios de passagens do ambiente do impresso para o universo dos tablets. Por meio de vídeos e entrevistas pretende-se documentar e refletir sobre esse momento de justaposições de formatos e plataformas. Além disso, o site do projeto busca expor os pensamentos dos entrevistados e suas relações com a tecnologia e o livro digital.”

Uma iniciativa louvável e importante que merece ser acompanhada de perto.

Conheça o site do projeto.

Assista ao teaser do documentário, que traz bem no início uma interessante citação da professora Lucia Santaella:

“Umberto Eco diz que há dois suportes eternos, porque são perfeitos: a cadeira e o livro impresso”.

Será mesmo?

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De volta…

Estou de volta ao Rio de Janeiro, finalmente. Foi muito bom fazer o estágio em Portugal, tanto do ponto de vista da pesquisa quanto da experiência pessoal. Mas nada como retornar pra casa…

É muito interessante entrar em contato com outro grupo de pesquisa, especialmente no estrangeiro, e conhecer um ponto de vista diferente sobre seu tema de pesquisa. Por outro lado, é fascinante se inserir durante algum tempo em uma outra cultura – por mais similar que seja, como no caso da portuguesa – e experimentar novos modos de viver. Por tudo isso, sem dúvida alguma, recomendo a todos a vivência do estágio sanduíche.

E, assim que cheguei, já voltei também ao trabalho. Na semana passada estive em São Paulo para participar do I Congresso Mundial de Comunicação Ibero-Americana, na ECA/USP, onde apresentei o trabalho Escrita digital – Uma exploração de sua constituição e genealogia, na Sessão Temática de Cibercultura. Você pode conferir os slides da apresentação abaixo:

Em breve, o artigo completo deve estar disponível no site do Confibercom.

Nos próximos dias vou postar novas contribuições que tenho recebido, com mais algumas reflexões sobre os processos autorais em rede.

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Linguagem digital e automação

Um dos tópicos que estou estudando atualmente é a característica autômata do meio digital. Como pesquiso a autoria em rede, este é um dos elementos que não posso deixar de considerar já que ele está presente nas mais simples operações da escrita eletrônica. Agora mesmo, enquanto digito este texto, o programa não para de me apresentar opções de palavras para eu escrever, numa espécie de interação autoral entre mim e a máquina.

Para começar a entrar no tema, encontrei referências no trabalho do pesquisador russo Lev Manovich. O pensamento dele é bastante interessante porque também está ancorado na ideia de que que a linguagem das mídias é formada a partir da herança de traços de mídias anteriores. E eu já vinha trabalhando com essa noção, a partir do conceito de remediação de Jay Bolter e Richard Grusin, como já postei aqui.

Ele argumenta que no processo de desenvolvimento das novas interfaces culturais são empregados elementos de linguagens já conhecidas, o que faz parte do processo de apropriação das novas linguagens através do reconhecimento de traços de sua estrutura. Assim cita, por exemplo, como a interface da página, uma superfície retangular com uma quantidade limitada de informação, tem sido a referência cultural de leitura há séculos, desde o códice até as telas eletrônicas. Em suas palavras, “as novas mídias podem ser compreendidas como o mix de antigas convenções culturais de representação, acesso e manipulação de dados e convenções mais recentes de representação, acesso e manipulação de dados”.

Em sua análise sobre os princípios das novas mídias, identifica cinco tendências gerais que marcariam a passagem para a cultura digital, que são: representação numérica; modularidade; automação, variabilidade e transcodificação. Me deterei na análise das três primeiras, que se relacionam mais diretamente com minha pesquisa sobre autoria colaborativa em meio digital, já que a possibilidade da participação da máquina no processo de produção textual, sem dúvida, desestabiliza de vez a noção que temos de autoria como algo individual e até mesmo humano.

O princípio de representação numérica constitui a base da linguagem digital. Para o computador, todo o tipo de informação, sejam textos ou imagens, é um código digital, uma composição binária de 0 e 1. Este primeiro princípio permite a existência do segundo: a modularidade, chamada de estrutura fractal da mídia, isto é, a manutenção da mesma estrutura em diferentes escalas do objeto, sejam elas caracteres, pixels ou scripts, que continuam a manter sua identidade no todo e nas partes. Esta segunda propriedade das mídias digitais permite também a variada combinação de elementos que permanecem independentes, podendo ser alterados enquanto tal. Um exemplo é a própria página web, composta de diversos elementos – textos, imagens, vídeos, animações etc. – articuladas de forma modular. Estas duas tendências conferem uma grande maleabilidade a todo dado digital, seja uma foto ou um poema, que pode receber intervenções amplas ou pontuais, das mais diferentes naturezas – cor, brilho, resolução, entre outras, em uma imagem; tamanho, estrutura, movimento, entre outras, no texto.

Uma das possibilidades abertas pelos dois primeiros princípios é a da terceira tendência – a automação, que representa a intervenção direta e autônoma do computador na produção em meio digital. Um exemplo é a atuação dos chamados bots no processos editoriais da Wikipédia. Atualmente eles são responsáveis por significativa parte das edições da publicação, variando de 10%, na versão japonesa da enciclopédia a 30%, na francesa. Sabemos que há atualmente na versão em língua inglesa da enciclopédia nada menos do que 685 programas robôs em ação e 180 na versão lusófona. Suas tarefas são de natureza mecânica com duas funções básicas: editorial, isto é, apagar ou criar páginas, conferir interlinks etc; e de vigilância, ou seja, detectar, apagar e denunciar a ação de spam e de vandalismo. Pode-se analisar esses dados entendendo a atuação dos robôs como um tipo de prótese cognitiva/operacional, capaz de reconhecer erros e de consertá-los.

Isso faz pensar no papel da máquina no processo autoral. Ou, em outras palavras, é possível conceder o status de autor ao computador? Este tema, sem dúvida, rende uma longa discussão que vou deixar para outro post.

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A escrita em meio digital

Uma das vertentes de minha pesquisa é o estudo sobre a especificidade da linguagem digital. Tenho buscado compreender o que diferencia o meio digital das outras plataformas que o precederam, especialmente em relação à escrita. Meu objetivo é entender o que realmente há de novo nesse meio para fugir de uma leitura muito deslumbrada do fenômeno. A história da escrita é muita antiga e variada, é interessante estudá-la para poder perceber o que de fato existe de inovador nos tempos atuais.

Um conceito que tem me ajudado muito nesse caminho é o de remediação, proposto pelos pesquisadores Jay Bolter e Richard Grusin. A ideia básica é que um novo meio não é criado a partir do nada, mas sim a partir de referências das linguagens das mídias que existiam antes. Então, dentro dessa lógica, cada novo espaço de escrita é uma remodelagem de seus antecessores. E o que realmente há de novo em cada um é a maneira única com que reinventa, ou dá nova forma, a uma mediação anterior.

É muito interessante, por exemplo, observar os manuscritos da era medieval. A interatividade, algo muitas vezes descrito como uma grande novidade da escrita digital, já estava presente nas marginálias, que nada mais eram do que comentários acrescentados ao texto original que iam se somando ao longo dos anos. Já comentei aqui em outro post que naquela época a produção textual tinha um caráter também colaborativo, pois era feita por diferentes agentes: o copista, o compilador, o comentador e o autor.

Depois veio o livro impresso e com ele toda uma outra prática social em torno da escrita e da leitura, marcada por um maior fechamento e individualização. O texto se tornou mais fechado em um duplo sentido: por um lado, passa a ter um autor individual identificado; por outro, não está aberto para acréscimos ou comentários. Paralelamente, a prática da leitura também se individualizou: as leituras públicas da era medieval foram pouco a pouco sendo substituídas pela leitura silenciosa e solitária na chamada Alta Idade Média. Desse modo, a separação entre autor e leitor se tornou mais nítida na medida em que o texto se fechou a interferências.

Observamos que a tecnologia eletrônica irá combinar as peculiaridades do manuscrito, como a interatividade e a produção coletiva, com as do texto impresso, como a leitura individual silenciosa. Soma ainda alguns traços da cultura oral (que desenvolvo depois em outro post), como o processo cognitivo comum.

Mas, então, o que a escrita em meio digital traz de novo? Para o pesquisador canadense De Kerckhove, a característica que distingue a interface digital é a conectividade, que está diretamente relacionada a outro atributo: a eletricidade. Por meio dela a mente humana é impulsionada para outra dimensão perceptiva e cognitiva, que diz respeito não só à velocidade, mas especialmente à abrangência das interações, favorecendo sobremaneira as estratégias colaborativas, notadamente em processos autorais.

Nesse ambiente, surge um novo tipo de espaço, que interliga de modo original o espaço público e o espaço privado, como um espaço estendido e coletivo que abre novos potenciais à criação. Podemos pensá-lo como um espaço híbrido, feito da interconexão entre o mundo material e o virtual. Assim, sozinho na frente da tela do computador, tem-se acesso a uma memória comum e a possibilidade de interagir com ela. O hipertexto promove, dessa forma, uma cognição compartilhada.

A eletricidade, portanto, é traço específico do meio digital que dá outra dimensão aos atributos que ele herda, ou remodela, dos outros meios. A interatividade e a produção coletiva ganham uma amplitude inédita e a capacidade de armazenamento de dados, ou a memória, passa a ser virtualmente infinita. Ao lado disso, a velocidade tecnológica possibilita conexões cada vez mais amplas e mais rápidas, multiplicando geometricamente o potencial cognitivo e criativo.

O post já ficou grande, e eu poderia escrever muito mais sobre a linguagem digital. Então vou parar por aqui, e volto ao tema em outro dia.

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Autoria maquínica – o computador autor

Um dos aspectos mais instigantes relativo aos processos autorais de escrita eletrônica é quando em cena um elemento que desloca de vez a noção de autoria como algo de natureza individual e mesmo humana: o próprio computador no papel de agente criador. Mais do que mero processador e armazenador de informações, o computador nesse caso é um manipulador de signos.

A participação do computador na criação textual é algo pouco explorado, ainda nascente, que pode ser observado especialmente em alguns projetos artísticos. Vamos nos deter aqui na análise um exemplo dessa autoria maquínica ligado à produção textual, denominado de texto generativo ou literatura generativa.

A construção desse tipo de obra se dá em dois momentos: uma do planejamento; e outra de sua execução propriamente dita. Em primeiro lugar, o homem, meta-autor, pensa o projeto e define suas variáveis, ou seja, desenvolve as diretrizes do software. Na segunda etapa, a máquina processa essas informações e apresenta múltiplos resultantes, na forma de construções discursivas que são atualizações do campo de virtualidades.

No entanto, as saídas criadas pelo computador são potenciais mas não previsíveis. Inventam um campo de significados não imaginados a priori e podem surpreender com a invenção de signos e sentidos originais. Como gera um novo, pode desestabilizar o pensamento e instigar reflexões. Nesse sentido, pode-se pensar a máquina como parte atuante no processo de criação artística, já que ela fornece elementos que deslocam o entendimento e a percepção de forma única e original.

Clique aqui para conhecer Sintext de Pedro Barbosa

Como exemplo de projetos dessa natureza podemos citar o Sintext, de Pedro Barbosa , um projeto de literatura algorítmica. A partir de um eixo sintagmático (sequência parentetizada) e um eixo paradigmático (base lexical conjugada), o computador gera uma infinidade de produções discursivas com diferentes significados. Aqui pode-se falar na existência de um texto virtual, no sentido de que é um texto que pode se desdobrar quase indefinidamente em outros textos, com sentidos originais, muito além de uma predefinição já dada.

Clique aqui para conhecer o Poemário

Na mesma linha, vale conhecer o projeto Poemário de Rui Torres e Nuno Ferreira, um gerador de poemas combinatórios.

Um outro exemplo é o projeto experimento tecno-poético intitulado “máquina de escrever avariada” de Artur Matuck, uma proposta de eletroescritura. A primeira destas máquinas, Theoretical Wind, um subprograma computacional, retirava consoantes e vogais de uma palavra digitada e inseria apenas consoantes em seu lugar. Daí eram criadas novas palavras que por sua vez geravam maior complexidade semiótica, na medida em que propunham significantes originais que poderiam contribuir para a renovação do código linguistico. Diversas “máquinas avariadas” estiveram disponíveis no site Landscript entre 2001 e 2005, atualizando o projeto original da eletroescritura para usuários online. O poema Hpistemmlogy, escrito em 1995 em Gainesville, Flórida, é um exemplo desse processo autoral homem-máquina criado por Matuck:

Hpistemmlogy
epistrmobogy
epistemologt
epistpmoloyy
epistemoqogy
epistemtlogr
epistxmology
episvcmohogy
ebhstvmology
episteqolqgy
hpistemmlogy
Epistemology (MATUCK, 2009, p. 6)

É possível observar a filiação desses projetos às primeiras experiências de Arte Combinatória, que remontam pelo menos ao século XIII com as ideias do filósofo catalão do século 13 Ramon Lull, e que ganharam maior densidade com a Dissertatio de Arte Combinatória de Leibniz, no século XVII.

Um exemplo contemporâneo bastante conhecido é o poema Cent Mille Milliards de Poèmes, criado em 1961 por Raymond Queneau, do grupo francês OULIPO – Ouvroir de Littérature Potentielle (Oficina de Literatura Potencial). Composto de dez sonetos de 14 versos alexandrinos impressos em tiras diferentes, que podem ser manipuladas de forma independente, permitindo montar 100 trilhões (1014) de combinações aleatórias. E a cada composição tem-se uma variação semântica no mesmo estilo do que resulta nas experiências de texto generativo: criando novos sentidos a partir de uma virtualidade de variáveis.

Vemos, portanto, que a ideia de uma produção textual que tenha por base uma inspiração matemática, com elementos de composição aleatórios e imprevisíveis, e que possa assim desestabilizar um campo de significações até certo ponto controlado por um autor, existia muito antes da invenção da informática. No entanto, o computador, com sua velocidade e automação, tornou possível um sem número de projetos experimentais que exploram de forma muito mais ampla a produção de textos combinatórios generativos. A máquina digital elevou exponencialmente o potencial da geração automática de textos a partir de variáveis a uma proporção antes inimaginável.

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La Plissure du Texte, projeto pioneiro de autoria em rede

Um conto de fadas criado de forma colaborativa a nível mundial. Uma ideia nova? Nem tanto. Este foi o mote do projeto La Plissure du Texte, coordenado por Roy Ascott nos idos de 1983, como parte do Electra, Electricity and Electronics in the Art of the XXth Century, no Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris.

Inspirado em parte no texto Le plaisir du texte,  de Roland Barthes, especialmente no seu conceito de juissance (prazer), o artista resolveu criar um experimento da telemática da utopia para, em suas palavras: “ (dar/oferecer) prazer narrativo  no contexto de sistemas abertos de tempo não-linear (assincrônico) e de espaço ilimitado (não-localizável)”.

Pensou então em um projeto que envolvesse caminhos associativos múltiplos para criação de uma narrativa de forma assíncrona, de múltiplos níveis e não linear. Para isso, se baseou na estrutura narrativa e na morfologia dos contos de fadas de Vladimir Propp, formada por sete dramatis personae: o vilão, o doador, o ajudante, a princesa, o mensageiro, o herói e o falso herói (ou anti-herói).

Ascott fez circular panfletos e anúncios na imprensa, como este:



E postou no sistema Artex uma mensagem que pode ser resumida assim:

Dated: july 18 1983

Projeto de narrativa colaborativa, envolvendo uma rede de artistas ao redor do planeta

Objetivo: Criar um texto de conto de fadas gerado por artistas localizados na Áustria, Austrália, Canadá, Holanda, França, Havaí, Inglaterra, Gales e EUA

Papéis: Os artistas colaboradores irão gerar o texto do ponto de vista de um papel ou identidade assumidos. Cada um irá se tornar um personagem no conto de fadas, atribuído pelo organizador do projeto, como vilão, herói, falso herói, princesa, ajudante, etc.

Duração: Primeiras três semanas de dezembro.

Método: terminais de dados ligados ao IP Sharp Artbox, com terminais de exibição e cópia no Musée D’Art Moderne de la Ville de Paris.

Abaixo, as fotos dos diferentes terminais que participaram do experimento:

Como resultado, artistas e grupos de artistas em 11 cidades da Europa, América do Norte e Austrália concordaram em juntar-se ao projeto. La plissure du texte esteve ativo on-line por 24 horas, durante doze dias – de 11 a 23 de dezembro de 1983. Durante este período, centenas de “usuários” envolveram-se em um grande intertexto, na feitura de um “tecido” que não poderia ser classificado, gerando um “conto de fadas planetário”. Por conta das diferenças de fusos horários, as narrativas muitas vezes se sobrepuseram e se fragmentaram.

Veja um exemplo que mostra como a criação textual se misturou com a visual:

Aqui você tem um registro desta experiência.

Estive revendo este projeto para minha apresentação no Acta Media In-Pacto 8º Simpósio Internacional de Artemídia e Cultura Digital, que está sendo realizado de 13 a 27 de agosto em São Paulo. Na minha apresentação vou falar sobre “Processos criativos intersubjetivos – a autoria colaborativa em rede”, na próxima segunda-feira, dia 23, e vou citar alguns exemplos de autoria colaborativa.

Além do La Plissure du texte, vou abordar também algumas iniciativas atuais no Twitter, que tem em comum a proposta de uma autoria colaborativa distribuída, como o @twiterbook, no qual foram escritas cinco estórias entre 28 de julho e 21 de dezembro de 2009, através da colaboração de 67 co-autores em 135 tweets. Mais detalhes da proposta podem ser checados aqui.
Outra experiência interessante é a do Twitter Opera, que só conheci recentemente:  a criação colaborativa de uma ópera via twitter para apresentação no Royal Opera House, em Londres. Começou em 31 de julho de 2009 e continuou durante todo o mês de agosto seguinte. A apresentação da ópera foi em 5 e 6 de setembro do mesmo ano.  Esta é uma iniciativa do Projeto Deloitte Ignite Opera.

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Por que o Google Wave não deu certo?

Recebi a notícia sobre o fim do desenvolvimento do Google Wave com algum pesar, mas não com surpresa. De fato estava já bastante claro que a plataforma não tinha rendido o esperado. Apesar de chegar com uma proposta muito interessante, a de oferecer muito mais recursos para a escrita colaborativa, no final de contas o projeto não conseguiu ganhar os usuários. Provavelmente, meu primeiro palpite, por causa de uma interface um tanto complicada e mais alguns bugs que faziam as promessas de uma comunicação distribuída em tempo real soarem exageradas.

Este post aqui faz uma boa análise dessa complicação.

Eu consegui meu convite para entrar no Wave logo na segunda leva, por conta de um amigo que trabalha na Google. E fiquei tão animada que já planejava incluí-lo entre os objetos de estudo na minha pesquisa. E realmente tinha tudo a ver com as coisas que eu estava trabalhando: um processo autoral cada vez mais dialógico por conta de uma comunicação que se aproxima de uma conversação face a face. Pensava aí na ideia da dupla lógica da remediação: o novo meio, através de uma hipermediação, isto é, com sofisticação tecnológica, buscava uma imediação, um apagar de sua própria interface, uma imitação do real. O objeto dos meus sonhos para falar da autoria colaborativa, mas…

Então fui logo querendo fazer testes, convidar pessoas e, enfim, ver aquele negócio em funcionamento. Mas aí é que a coisa emperrou. Convidei muita gente, uma boa parte entrou, alguns começaram a participar da brincadeira mas, de repente, tudo parou. E parado ficou. Passaram-se alguns meses e daí nem eu mesma entrava mais na plataforma. Pra dizer a verdade, acabei esquecendo dela. E aí vai o meu segundo palpite: com tanta coisa interessante para eu acompanhar no Facebook e no Twitter, por que ficar abrindo mais uma aba no meu browser que, no final das contas, não me oferecia nenhuma informação nova, nenhum input? Ela não foi povoada, o povo não quis ficar lá.

Isso me leva a concluir que para tentar mudar um padrão de usabilidade já muito bem estabelecido é preciso que se apresente uma interface basicamente simples, estável e funcional, que ofereça uma experiência mais interessante ou diferente daquelas que já estão aí consolidadas. Me parece que o Wave, apesar de todas as boas sacadas, não conseguiu alcançar esse patamar de qualidade. A Google agora investe numa nova rede social, o Google Me. Espera-se que seja melhor do que o Orkut, que já ficou pra trás, e do que o Buzz, que por aqui também não vingou.

Resta lamentar, sem dúvida, que uma ferramenta com recursos tão interessantes não tenha conseguido vencer os percalços e se estabelecer. Fico na torcida para que alguns desses recursos venham a ser incorporados em plataformas exclusivas para a criação textual colaborativa, como o GoogleDocs. Talvez nesse ambiente a ideia tenha mais chance de prosperar.

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