Da Ciência Aberta à Ciência Comum

Já escrevi algumas vezes aqui no blog sobre Ciência Aberta, uma prática emergente em pesquisa científica na qual tanto os dados brutos quanto os resultados das investigações são divulgados publicamente, sem a preocupação com o registro de patentes.

Essa dinâmica permite que diferentes centros de pesquisa possam colaborar entre si, privilegiando o avanço do conhecimento sobre a pontuação acadêmica, pela publicação de artigos, ou a mercantilização do produto, via patentes.

Tem alguns exemplos neste post aqui.

A princípio, comparei esse modelo de pesquisa científica com a produção de software livre. No entanto, pesquisando mais sobre o assunto, percebi que algumas características importantes são diferentes.

Em primeiro lugar, a Ciência Aberta é uma prática claramente restrita à comunidade científica, isto é, aos portadores de títulos que os autorizam a produzir conhecimento válido. Já na comunidade hacker, não há pré-requisito de titulação para participação, somente habilidade e competência no desenvolvimento do programa.

Sendo assim, se formos pensar em uma Ciência inspirada na cultura hacker,seria preciso que outros conhecimentos fosse validados, por exemplo: os saberes tradicionais; o conhecimento produzido por cidadãos; as experiências nos chamados hacklabs, que reúnem pessoas, especialistas ou não, interessadas em pesquisas científicas etc.

Uma questão talvez ainda mais importante, que ainda não é contemplada pelas iniciativas de Ciência Aberta, é o entendimento do conhecimento como commons. Isto é, algo que é e deve permanecer como um bem comum, que não possa ser apropriado nem pelo estado nem pelo mercado.

O professor Antonio Lafuente, pesquisador do Centro de Ciencias Humanas y Sociales, na Espanha, e coordenador do Laboratorio del Procomún do MediaLab Prado, em Madri, é uma das referências no pensamento sobre a Ciência Comum.

Para ele, o conceito de Ciência Comum vai além das noções de Ciência Aberta ou de Ciência Pública, disponível para todos. É, na verdade, a produção do conhecimento entre todos. Para isso, deve poder ser feita por todos, sem exigência de credenciais acadêmicas.

Embora reconheça alguns avanços no modelo de Ciência Aberta, Lafuente destaca sua vulnerabilidade, já que provavelmente seus maiores beneficiários são as grandes corporações que têm a capacidade de capitalizar sobre a informação.

Considerando-se que a produção científica tradicional é direcionada em boa medida por interesses políticos e/ou mercadológicos, só o fortalecimento de uma Ciência Comum poderia contemplar de forma mais plena os interesses e as escolhas da maioria dos cidadãos.

2 Comentários

Arquivado em Ciência Aberta, Commons, Open Science

2 Respostas para “Da Ciência Aberta à Ciência Comum

  1. Cristina

    Excelente discussão Bia! Ciência Aberta me parece algo revolucionário. Era de Aquarius🙂

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