Economia Peer-to-Peer

A dinâmica de produção do sistema operacional GNU/Linux pode se tornar modelo para outros setores da economia? As novas formas de produção distribuída e equipotencial entre pares estariam apontando para um sistema que vá além do capitalismo?

Michel Bauwens, criador da Peer-to-Peer Foundation, destaca algumas características desse modelo produtivo que representariam profundas mudanças no paradigma da economia capitalista e que poderiam apontar na direção de sua superação:

– a produção entre pares possibilita efetivamente a cooperação livre entre produtores;
– a autoridade entre pares transcende tanto a autoridade do mercado como a do estado;
– as novas formas de propriedade universal transcendem as limitações dos modelos de propriedade pública e privada na constituição de um patrimônio comum;
– o surgimento de uma nova ética do trabalho (Ética Hacker) e novas práticas culturais.

Já Yochai Benkler, outro importante pesquisador da produção P2P, enfatiza que as redes de comunicação tornaram possível a disseminação em larga escala de práticas colaborativas e solidárias que já existiam em escala menor na sociedade. Hoje você pode não só colaborar com uma iniciativa comunitária no seu bairro, mas também se engajar nos mais variados projetos nos quatro cantos do planeta. Dessa forma, então, iniciativas cooperativas têm ganhado força numa dimensão inédita.


Assista ao TED com Yochai Benkler sobre a nova economia de informação em rede

Os dois pesquisadores concordam que a emergência da produção P2P deriva em grande parte da disseminação das tecnologias de informação e comunicação. Como o capitalismo na atualidade é baseado no conhecimento que gera novo conhecimento (inovação) e o computador é o meio que permite tanto o acesso ao conhecimento produzido como a produção do novo conhecimento, pela primeira vez no sistema capitalista o capital fixo é acessível ao cidadão comum.

De fato, há hoje muitos exemplos de iniciativas P2P nas mais diversas áreas, que ilustram como a produção entre pares pode alcançar os mais diversos setores da economia: o projeto WikiHouse, um protótipo arquitetônico aberto que pode ser produzido em impressoras 3D para gerar moradias de baixo custo; ou WikiSpeed, um projeto de carro concebido em um modelo de produção open-source com a colaboração de mais de mil pessoas de 20 países diferentes; ou ainda o sistema de empréstimo P2P Zopa, que intermedia as operações entre as pessoas, possibilitando taxas mais atraentes para quem empresta e para quem toma emprestado.

No entanto, não se pode esquecer que, por outro lado, as formas de exploração da produção colaborativa se sofisticam ao mesmo tempo. As grandes empresas da atualidade fazem isso de forma explícita. A rentabilidade do Facebook , por exemplo, é baseada na colaboração de seus usuários que alimentam a plataforma de graça. Já o motor de busca Google retira valor de dados fornecidos voluntaria e gratuitamente por milhões de pessoas. Some-se a isso o fato de que essas duas grandes empresas são também as maiores alimentadoras dos sistemas de vigilância mundiais, monitorando toda a movimentação on-line e repassando esses dados para organizações governamentais e/ou outras empresas.

O que irá prevalecer? A potência da produção colaborativa entre pares que pode criar soluções para diversos impasses contemporâneos ou disposição da máquina capitalista em capturar a produção colaborativa para priorizar o lucro acima dos interesses coletivos? Está aí, de forma ultra sintética, a grande disputa contemporânea.

Estes foram alguns dos pontos abordados na aula Economia P2P: a produção colaborativa. Para quem se interessar, segue abaixo a apresentação com mais algumas referências:

3 Comentários

Arquivado em Autoria Colaborativa, Linux

3 Respostas para “Economia Peer-to-Peer

  1. Já conversamos antes e ainda divergimos no ponto que considero nevrálgico para a economia p2p: o share de remuneração.
    No formato capitalista atual, penso que, a tendência será de continuar a concentrar riqueza e explorar o trabalho intelectual gratuito da colaboração. Os meios de produção não estão nas mãos do povo nem dos “colaboradores”.
    Entendo esse formato de colaboração “free of charge” limitado apenas à produção científica patrocinada por governos.

    Considero urgente e nessessaria a criação de um modelo econômico que remunere a colaboração.

    Abraço
    Rodrigo

    • Oi Rodrigo,

      O fato de divergirmos é até interessante para podermos refinar mais nossa argumentação.

      Você viu que o post fala também da exploração da colaboração em empresas como Facebook e Google, não? Tem a ver com o que você assinala como tendência de concentrar riqueza e explorar o trabalho intelectual gratuito, não?

      Alterei o texto por conta de sua observação. Onde tinha escrito “meios de produção” mudei para “capital fixo”, que é o termo empregado pelo Bauwens e fica mais preciso, pois “meios de produção” envolve mais coisas do que máquinas de produção, que é ao que os autores se referem.

      Na aula, também foi discutida a questão da remuneração x exploração da colaboração. Falou-se que o modelo P2P pede uma outra lógica de remuneração, diferente da atual. Por um lado, doa-se algo para depois vender um serviço. Os desenvolvedores de software livre, por exemplo, disponibilizam gratuitamente suas linhas de código, mas vendem depois seus serviços de suporte ao sistema. Também foi lembrada a proposta de renda universal, que vem sendo discutida em nível internacional, como garantia de remuneração a todos os cidadãos já que todos colaboram com a fábrica social na produção de conhecimento.

      Mas, afinal, como você vê esse modelo de remuneração à colaboração? Abrangeria todos os projetos ou só os que geram lucro financeiro? Envolveria também iniciativas como GNU/Linux e a Wikipédia? Como seria feita, na sua opinião, a medição desse trabalho colaborativo? Como deveria funcionar esse sistema?

      Um abraço,

      Bia

  2. Pingback: Por que o Uber não é parte da economia colaborativa | Autoria em rede

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