FLOK Society – por uma matriz econômica voltada ao bem comum

Desde outubro de 2013, uma experiência inovadora e arrojada vem sendo desenvolvida no Equador: o projeto FLOK Society – Free/Libre Open Knowledge Society.

Seu objetivo geral é propor políticas e estratégias que permitam ao país mudar sua matriz produtiva atual para uma economia baseada no conceito de conhecimento livre, aberto e comum.

Michel Bauwens, criador da P2P Foundation, dirige o projeto a convite do presidente Rafael Correa. Ele fala sobre a abrangência da iniciativa:

“Muitos países têm ministérios da economia social ou economia solidária que atuam apenas de forma marginal. O que estamos propondo é tornar a economia social em algo super-produtivo, super-competitivo e super-cooperativo. Paradoxalmente, como você sabe, as grandes empresas estão investindo grandes quantias de dinheiro em iniciativas de produção P2P, enquanto que as cooperativas estão de braços cruzados, isto é o que queremos mudar. O projeto FLOK Society aqui no Equador, propõe uma reorganização estratégica para que a economia social desempenhe um papel fundamental, ao invés de funcionar como uma mera adição ao paradigma neoliberal existente.”

O processo de trabalho é também aberto e colaborativo. Inicialmente houve uma convocação mundial para pesquisadores, ativistas e trabalhadores das mais diversas áreas que quisessem propor ideias para o desenvolvimento desse novo paradigma. As discussões de planejamento têm se dado presencialmente e virtualmente, com o apoio de plataformas colaborativas como wikis, pads e listas de discussão.

Conheça o site oficial do projeto.

A meta é elaborar 10 documentos estratégicos que cubram todo o espectro de áreas sócio-técnicas que constituem a matriz econômica, desde redes de trocas de sementes até estrutura de wi-fi comunitária, passando por novas leis de gestão científica aberta e protocolos para a administração pública.

Leia um pequeno trecho da Carta Aberta para convocação pública:

“Imagine uma sociedade que esteja conectada ao bem comum do conhecimento aberto em todos as áreas da atividade humana, baseada em conhecimento, código e desenho livres e abertos, que possam ser usados ​​por todas e todos cidadãos, em parceria com atores governamentais e do mercado, sem a discriminação e falta de poder decorrentes do conhecimento privatizado.”

Carta Aberta FLOK Society

Carta Aberta FLOK Society

Clique aqui para ler a carta na íntegra
(em diversos idiomas, inclusive em português)

O pesquisador George Dafermos, responsável pela investigação de Mudança da Matriz Produtiva, dá alguns exemplos concretos de como a adoção do modelo de conhecimento livre, sem o recurso limitador de patentes, pode representar ganho para a população equatoriana. Um deles consiste na construção de um bote de transporte ecológico, movido a energia solar e construído com licenças abertas, para o translado de turistas a Galápagos. Outro é a criação de um banco de dados com informação técnica (sobre o clima, o solo, o sol, os ventos etc) que permita a qualquer cidadão construir projetos de energia renovável.

Está prevista uma reunião ampliada no final do mês de maio, como a culminância do processo, que reunirá especialistas do mundo todo com representantes de entidades civis e públicas do país, a fim de fechar uma proposta final com orientações estratégicas para a implantação da nova matriz econômica, que será encaminhada à Assembleia Nacional do Equador.

Para além dos resultados concretos que venha a produzir no país, o projeto FLOK Society representa um importante avanço na construção de uma proposta de matriz econômica sustentável voltada ao bem comum, como uma alternativa em nível mundial.

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Hacia un procomún material

11 Comentários

Arquivado em Commons, Economia Imaterial, Open Science, Propriedade intelectual

11 Respostas para “FLOK Society – por uma matriz econômica voltada ao bem comum

  1. Oi Bia,
    esse post vem de encontro com uma discussão que tenho com meus colegas de equipe há 2 anos. Somos P2P roxos, pensamos que a saída pode ser a economia P2P e a colaboração… tudo ótimo, tudo maravilhoso, mas, sempre tem um mas… Eu, tenho um mas, apesar da minha equipe ser contrária ao que penso neste caso, eu acredito que não consegui colocar no papel corretamente esses poréns… A remuneração para a colaboração e contribuição nesses processos precisa ser repensada (ou pensada/instituída/arbitrada).

    Essa questão da matriz econômica autossustentável pode ser um início. Um bom início. Os sistemas proprietários como Orkut, Google e Facebook tendem a desaparecer por serem sistemas que são remunerados, no entanto não remuneram seus colaboradores, ora, quanto vale uma “meme” que dá a volta ao mundo? E mais vale para quem criou e vale para quem distribuiu…

    Na Sociedade da Informação distribuir tem tanto valor quanto criar, identificar o que merece ser repassado e o que não, fazer o gatekeeper múltiplo é um trabalho de seleção caro. Mesmo que todos estejam fazendo e não seja mais um fenômeno localizado em um meio de comunicação por um editor chefe…

    Criar, fazer curadoria, discutir, colaborar, comentar em posts, tudo isso precisa ser remunerado de alguma forma e cada autoria precisa ser computada, pois são desses comentários e discussões que nascem as novas teorias e a ciência cresce.

    Sem remuneração temos o que há hoje, desinteressem em trabalhar o pensamento e em colaborar com as ideias dos outros…

    Torço para que essa conversa avance e seja instituído um modelo econômico que remunere a colaboração. De onde irá surgir não sei… mas esse post que vc nos trouxe pode ser um começo.

    Abraço

    • Oi Rodrigo,

      Me lembro de conversamos sobre suas ideias para remuneração da colaboração há algum tempo. No entanto, a proposta da FLOK Society não trata diretamente desse tipo de colaboração em redes sociais ou Wikipedia.

      A ideia central é pensar uma matriz econômica para o país baseada no conhecimento livre e aberto e com ênfase em iniciativas sociais cooperativas e de economia solidária.

      Nesse sentido, criar estratégias para o desenvolvimento econômico sem a limitação da propriedade intelectual (patentes) e voltado para o bem comum, pensando em políticas para saúde, agricultura, educação, administração pública etc.

      Um abraço,

      Bia

      • Não vejo a possibilidade de haver futuro na colaboração sem remuneração dos colaboradores. Se há um pensamento de uma base econômica, há também um pensamento que envolve algum tipo de remuneração. A simples troca de serviços não resolve o principal que é o sustento e o desenvolvimento sustentável.

      • O que eu quis dizer é que o projeto FLOK Society, que eu saiba, não trata da colaboração sem remuneração, como as que você menciona, mais presente nas redes sociais.

        O foco do projeto, na verdade, é mais na economia material, na qual já existe alguma forma de remuneração.

        As cooperativas, agrícolas ou urbanas, e as iniciativas de economia solidária já preveem remuneração aos envolvidos em sua produção, por exemplo.

        Outro foco importante é conhecimento livre e aberto, como forma de assegurar a autonomia tecnológica sem a restrição de patentes. Mas os pesquisadores a princípio fazem parte de organizações de pesquisa nas quais têm remuneração.

        Enfim, entendo que são questões diferentes.

  2. Muito interessante, Bia. Importante pensar alternativas ao modelo vigente. Tomara que com erros e acertos aos poucos as ideias avancem pro bem comum. Abç.

    • Isso mesmo, Teresa.

      O grande mérito do projeto, a meu ver, é ser um espaço de experimentação concreta de políticas alternativas ao modelo neoliberal, que possam responder aos desafios que enfrentamos na atualidade.

      bjs

      Bia

  3. Reynaldo Carvalho

    Minha amiga, estou passando por aqui para mandar um beijo carinhoso para você e para as suas filhotas.
    Tudo de bom !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. Reynaldo Carvalho

    Bia, feliz Páscoa !!!!!!!!!!!!!!!!
    Não sei se você conhece, mas achei essas duas preciosidades:
    1) – http://digitofagia.midiatatica.info/
    2) – http://digitofagia.midiatatica.info/digito_cookbook.pdf
    Torça por mim, 4a-feira saberei se fui aprovado para o pós-doutorado.
    Abs
    Reynaldo Carvalho

    • Oi Reynaldo,

      Feliz Páscoa e bom feriadão pra você!

      Vou conferir o link, pois suas dicas sempre valem muito a pena🙂

      E, sim, vou torcer por você! Depois me conte.

      Um abraço,

      Bia

  5. Reynaldo Carvalho

    Não ficou claro: no primeiro link, é para clicar no livro no final da página. É um ótimo livro.

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