Wikileaks e o paradoxo da liberdade de expressão

Mais uma vez, vou fugir um pouco do tema do blog para falar de outros aspectos da comunicação digital que estão desestabilizando o modo tradicional de circulação da informação. Estou me referindo especificamente ao Wikileaks, para quem ainda não sabe, uma organização internacional que divulga dados confidenciais, vazados de governos ou empresas, sobre temas sensíveis. Entre eles, um vídeo de 2007 que mostra o ataque de um helicóptero do exército norte-americano em Bagdá, que matou pelo menos 12 pessoas, entre elas dois jornalistas da agência de notícias Reuters; além de documentos secretos que confirmam a morte de milhares de civis no guerra do Afeganistão em decorrência da ação militar dos EUA.

Mais informações sobre o tema na Wikipédia

Ou direto no site do Wikileaks

Atualmente Julian Assange, seu fundador e um dos atuais coordenadores, está refugiado na embaixada do Equador em Londres. Ele responde a acusações de estupro e abuso sexual na Suécia, as quais nega, e corre o risco de ser extraditado para os Estados Unidos, onde pode ser processado por espionagem e fraude. Há especulações de que ele possa ser condenado à morte, já que um de seus principais informantes, o militar americano Bradley Manning, está preso em confinamento solitário há dois anos e meio na base naval de Quantico, sem direito sequer a julgamento.

Paulo Moreira Leite faz uma boa avaliação do caso aqui

Aí então é que surgem as perguntas: por que divulgar informações que são de interesse público é crime? Por que Assange foi transformado no inimigo público número um dos EUA? Além disso, por que organizações financeiras como Bank of America, VISA, MasterCard e PayPal bloquearam as doações ao Wikileaks? A liberdade de expressão não é um valor defendido com unhas e dentes pelos governos dos EUA e Inglaterra? O que mudou, afinal?

Antes da Internet, o modelo de produção e distribuição de notícias era bastante centralizado: poucas empresas jornalísticas tinham o monopólio sobre os dados aos quais a sociedade teria acesso. Mas, já há algum tempo, essa situação mudou, pois os produtores e disseminadores da informação se multiplicaram. Embora os meios de comunicação de massa, como televisão, jornal impresso e rádio, tenham ainda maior poder de penetração, sites e blogs constroem um contraponto à narrativa dominante, facilitando a circulação de posições políticas diversas e dificultando a constituição de um discurso único.

O Wikileaks trouxe um elemento a mais: a possibilidade de forçar a transparência de dados estratégicos, tanto do governo como de empresas. Para isso, conta com a ajuda de informantes anônimos, que repassam as informações de dentro dessas organizações. O meio digital facilita a operação, não só porque torna mais vulnerável o bloqueio ao acesso de dados, mas também porque permite sua rápida e ampla difusão. Um bom hacker pode fazer tudo isso sem deixar rastros…

Talvez o título deste post esteja incorreto. De fato, o paradoxo não é da liberdade de expressão, mas sim da forma pela qual essa bandeira tem sido levantada por governos ditos democráticos: dependendo dos interesses em jogo, do que se quer mostrar ou esconder, essa liberdade é incentivada ou criminalizada. Hoje, através das redes, não há mais como deter o livre fluxo da informação, doa a quem doer. O interesse público agradece.

Leia também o artigo dos cineastas Michael Moore e Oliver Stone – “Por que defendemos o Wikileaks e Assange”

1 comentário

Arquivado em Cultura hacker, Wikileaks

Uma resposta para “Wikileaks e o paradoxo da liberdade de expressão

  1. Cristina

    Perfeito, Bia! O interesse público agradece!

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