Sobre o legado (positivo e negativo) de Jobs

Sim, logo que soube da morte de Steve Jobs, um dos criadores da Apple, naquele final de tarde na última quinta-feira, eu me comovi. Pensei em toda a luta que ele travou contra a doença e na diferença que ele fez na história da informática. Não há dúvida de que as inovações que criou e/ou implantou definiram em grande medida a interface da computação pessoal, tornando-a mais amigável para o usuário comum.

Logo em seguida, naquele mesmo dia, alguém postou no Twitter o link do vídeo do discurso que ele fez na Stanford University. Eu não tinha visto ainda, vi e compartilhei. Uma bela fala dizendo basicamente que o importante é você seguir seu coração já que a vida pode ser tão incerta.

Assista ao vídeo.

Ok. Aquele era um momento de comoção e eu me deixei levar pela onda. Acho que a morte sempre faz isso, mitifica um pouco os que se vão, especialmente os que vão mais cedo. Mas passado algum tempo, é preciso contextualizar a obra de Jobs para poder colocá-lo no lugar que ele merece estar e não além disso.

Porque se suas inovações representaram uma melhoria na usabilidade das máquinas, o seu conceito de informática prejudicou muito o projeto pela manutenção de uma rede aberta e livre para trocas.

Richard Stallman, como sempre corajoso, foi um dos primeiros a desafinar o coro dos elogios a Jobs com uma declaração bastante forte:

“Eu não estou contente por ele estar morto, mas estou feliz porque ele se foi. Ninguém merece ter que morrer – nem Jobs, nem Sr. Bill (Gates), nem mesmo as pessoas culpadas por males maiores que os deles. Mas todos nós merecemos o fim da influência maligna de Jobs na computação pessoal.”

Talvez nem todos saibam que os produtos Apple tem uma tecnologia fechada, não só porque o sistema operacional é proprietário, assim como o Windows, mas muito mais do que isso, suas máquinas são muito mais controladas pelo fabricante. Por exemplo, é quase impossível desenvolver um aplicativo por conta própria e simplesmente rodar num Ipad, sem autorização da Apple. Talvez um exímio hacker possa conseguir esse tipo de feito, mas isso seria só um desvio na curva, não um padrão.

Ao contrário do que acontece com os outros computadores pessoais (PCs), que permitem o desenvolvimento de um sem número de aplicativos para as mais diversas funções. Por conta dessa abertura foi possível criar, entre outras coisas, a própria web tal como a conhecemos e também as redes peer-to-peer através das quais milhões de pessoas compartilham conhecimento e cultura. Nesse ambiente, não existe um limite para a inovação e também não existem direções pré-determinadas sobre o que deve ser implementado e como. A inovação vem da própria multidão de pessoas que povoa a rede e quer ampliar suas capacidades de comunicação e troca.

A diferença é que Jobs foi um especialista em criar equipamentos fantásticos e esteticamente maravilhosos para guiar os consumidores pelos caminhos do consumo, fechados e pré-determinados. Foi ele quem conseguiu implantar o modelo mais eficiente de venda de música pela Internet. Foi o mais competente em fazer da Internet um jardim murado, um lugar de caminhos de circulação e consumo controlados e pré-estabelecidos.

No entanto, a Internet é e deve ser muito mais do que isso: um espaço aberto e livre para a mais ampla troca entre as pessoas conectadas ao redor do planeta, que podem por sua vez criar mais e novas invenções para enriquecer o comum. Também não é o resultado da inspiração de um ou poucos gênios mas, ao contrário, é a soma das contribuições de uma multidão. Não é e não deve ser um produto para a venda, mas muito mais que isso: um recurso moldado pela colaboração e disponível para a partilha.

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