Remix ou plagiocombinação – algumas referências

Quando criei este blog, um de meus objetivos era encontrar interlocutores, pessoas que tivessem interesses próximos e com quem eu pudesse trocar ideias. Neste post quero compartilhar as referências que tenho recebido, especialmente as ligadas ao tema do remix.

Começo com o blog MixLit, de Leonardo Villa-Forte, que segundo sua própria definição “mistura diversos autores e estilos em surpreendentes e divertidos mash-up´s literários”. A proposta tem gerado estudos acadêmicos e também polêmicas, por sua ousadia em misturar trechos de obras de autores como Clarice Lispector, José Saramago, Sérgio Sant’Anna e outros, para criar uma mini narrativa remixada. Dê uma conferida em: www.mixlit.wordpress.com.

Barthes já dizia que “o texto é um tecido de citações, oriundas dos mil focos da cultura”, isto é, a criação (e podemos estender esta afirmação para as demais formas de expressão) é uma recombinação de elementos já disponíveis em um comum partilhado por todos. Por isso é tão questionável a noção de autor como algo de natureza puramente individual ou subjetiva. Esta concepção, que tem a ver com um determinado momento histórico, como já desenvolvi em outro post, se mostra cada vez mais inadequada para se pensar os processos criativos na atualidade.

Tom Zé, sempre visionário, nos ajuda a entender essa questão, lançando a noção de plagiocombinação:

“Hoje, também pelo esgotamento das combinações dos sete graus da escala diatônica [mesmo acrescentando alterações e tons vizinhos] esta prática desencadeia, sobre o universo da música tradicional, uma estética do plágio, uma estética do arrastão. Podemos concluir portanto, que terminou a era do compositor, a era autoral, inaugurando-se a era do plagicombinador, processando-se uma entropia acelerada.” (texto do encarte do CD Com Defeito de Fabricação)

Para saber mais sobre o assunto, leia o excelente artigo “Tom Zé, 70 anos é pouco”, de Demétrio Panarotto

Esta e as próximas referências me foram passadas pelo Reynaldo Carvalho, doutorando de Literatura na UnB, com quem tenho tido uma interlocução bem produtiva.

Um dos textos mais inspiradores é o Manifesto Sampler, de Fred Coelho e Mauro Gaspar. Segue um trecho:

“Não ponho aspas. As palavras são minhas. Não importa quem fala. Sou quem pode dizer o que disse. Fui eu quem escreveu. Agora abro as comportas e deixo que elas, as palavras, as vozes, se espichem, se multipliquem, se fortaleçam. Aglutinação pela dispersão. Ele(s) redige(m), mas sou quem escreve. Um corpo em disponibilidade para si e para o outro. Todo es de todos, a palavra é coletiva e é anônima.”
Leia a primeira parte do manifesto.

Outro trabalho que me impressionou bastante foi a tese de Marcus Vinicius Fainer Bastos, “ex-Crever? literatura, linguagem, tecnologia”, que traz não só uma reflexão teórica profunda sobre o remix articulando com diversas ideias, entre elas a da mestiçagem, como também apresenta uma programação visual inovadora que busca dialogar com o próprio tema em questão, da escrita digital (ou ex-crita, como ele deve preferir).

Por último, e realmente imperdível, a dica do livro Recombinação, uma coletânea de artigos do memorável site rizoma.net, que pode ser baixado aqui. Entre eles, “Copyright e Maremoto”, do coletivo Wu Ming; “A cultura da reciclagem”, de Marcus Bastos; “Entropia Social e Recombinação”, de Franco Berardi.

5 Comentários

Arquivado em Remix

5 Respostas para “Remix ou plagiocombinação – algumas referências

  1. Oi Reynaldo,

    É lamentável, um grande retrocesso. Eu estou acompanhando de perto essa história. A meu ver, existe um grande desconhecimento sobre o assunto, além de um imenso medo de acompanhar as mudanças. Como se fosse possível parar a história por decreto…

    Mas veja como é incoerente: ao mesmo tempo, a presidenta Dilma reafirmou seu apoio ao software livre com a publicação de uma instrução normativa a respeito – http://bit.ly/fpn3kW

    Sem falar que era também um compromisso de campanha…

    Enfim, eu entendo que por mais que a ministra já tenha tomado posição, esta é uma questão que está aberta para disputa na sociedade. Vamos à luta!

    Um abraço,
    Bia

  2. Pingback: Mais referências sobre o Remix | Autoria em rede

  3. Vivianne Chaves

    Oi Reynaldo,

    estou cursando a disciplina (A escrita como Remix) no curso de mestrado da UECE. Converso que comecei por curiosidade e estou a cada momento mais curiosa de informações sobre está realidade. Ainda não tenho uma opinião formada, se sou contra ou a favor, pois acho que assumir totalmente um lado é ser muito purista ou radical. Como percebo este fenômeno presente no meu cotidiano, quero entendê-lo melhor. Gostei muito do seu blog.

    Um abraço

    Vivianne Chaves

  4. Oi Vivianne,

    O remix é o modo pelo qual estamos lidando com a cultura. Penso que não é o caso de ser contra ou a favor, mas, como você mesmo diz, estudar o fenômeno para tentar compreendê-lo.

    Pois é, o Reynaldo é o mais ativo colaborador do blog, sempre me passando referências sobre o Remix, que é o objeto de estudo dele. Posso até dizer que ele é co-autor do blog de tantas contribuições que já deu.

    Meu tema é a autoria colaborativa de escrita através das redes, como no caso da Wikipédia. Mas a reflexão sobre as mudanças nos processos autorais na atualidade abrange também o remix, além de outros temas como a pirataria por exemplo. Tenho tentado abrir espaço pra todos eles aqui no blog.

    Valeu a visita e o comentário.

    Um abraço,

    Bia

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s