Wikileaks e a vigilância distribuída

Hoje de manhã Julian Assange se entregou à polícia britânica. Isso significa que o projeto de se vazar informações governamentais sigilosas deve acabar? Eu acredito que não por dois motivos: primeiro, porque o Wikileaks faz parte de um fenômeno mais amplo relacionado com a forma como hoje a vigilância não é mais top-down, mas sim distribuída. E segundo porque todas as tentativas de se deter o fluxo de informações através da Internet têm fracassado sistematicamente. Vou tentar me explicar melhor.

De tudo que tenho lido nos últimos dias sobre o Wikileaks, me chamou a atenção o artigo do Umberto Eco no qual ele destaca o fato de que a vigilância cessa de trabalhar só em um sentido e passa a ser circular. Você pode ler o texto Not such wicked leaks na íntegra em http://tinyurl.com/2fm7soh. Embora essa afirmação não seja exatamente um ponto de vista novo sobre os fenômenos envolvendo a cibercultura, toca em uma questão, a meu ver, definidora da própria natureza da rede.

As transformações dos modos de controle e vigilância na sociedade contemporânea é um dos temas que tem inspirado muitos estudos na área de Comunicação. A professora Fernanda Bruno tem já uma extensa pesquisa sobre o assunto que pode ser conferida no seu blog Dispositivos de Visibilidade. Durante minha pesquisa de mestrado, Cooperação e Controle na rede: Um estudo de caso do website Slashdot.org, eu me aprofundei nessa matéria porque percebi que mesmo ali, naquele site colaborativo, eu podia observar um certo controle distribuído.

A base para desenvolver minha argumentação foi o pensamento de Foucault sobre o poder como algo feito de relações de força, que não operam de forma unilateral, mas sim como uma tecnologia que varia em diferentes momentos históricos. Para não me alongar muito aqui no conceito, vou direto analisar como é a forma dessa tecnologia na atualidade.

Ao contrário do que pensa o senso comum, a vigilância contemporânea é bem diferente daquela imaginada por George Orwell no seu livro Big Brother. Não existe um poder central que a tudo controla, para o qual nenhum ato escapa. O que há de fato é uma ampla tecnologia de captação dos mais variados dados e das mais diversas maneiras – através do uso do cartão eletrônico; da navegação na Internet; dos telefones móveis; dos aparelhos de GPS etc. etc. Algo bem próximo do que mostra o filme Minority Report, de Steven Spielberg (tirando os precogs, e toda a teoria da conspiração, claro). Hoje por exemplo, já podemos ser avisados por nossos aparelhos móveis das promoções de lojas quando entramos num shopping, por exemplo. Estamos sendo rastreados…

O interessante é perceber que essa monitoração de dados se dá cada vez mais de uma forma participativa. Nós cedemos nossos dados pessoais em troca das vantagens que isso nos oferece. Ao fornecer dados para os sites a fim de podermos acessar mais informações. Ou ao permitir que nossos movimentos sejam registrados para que possamos usufruir das funcionalidades dos aparelhos de geolocalização, como os GPSs. O casal Nardoni, acusado de matar a menina Isabella, não imaginava que aquela engenhoca que ajuda a circular pela cidade fosse uma das provas centrais da acusação contra eles, por ter registrado exatamente o horário em que desligaram o carro na garagem, derrubando a versão deles sobre aquela noite.

Já o Wikileaks aponta para um outro aspecto dessa vigilância distribuída que é a possibilidade de se vazar quaisquer dados, seja por sua vulnerabilidade à perícia dos hacktivistas, seja pela colaboração de um soldado americano. Na rede, já não é possível assegurar o sigilo. E estamos vendo o que isso representa para os ocupantes dos cargos de poder, que ainda não estão preparados para o novo paradigma da vigilância. Vivemos tempos de grandes transformações. Essa é mais uma delas, e talvez uma das mais significativas, porque representa também a exigência de uma profunda mudança no modelo de transparência adotado pelos governos.

E não há como frear essa pressão, nem mesmo tirando o Wikileaks do ar ou prendendo Julian Assange. Assim como os outros fenômenos da comunicação pela rede que tentaram ser contidos (vide Napster ou quebra do padrão de criptografia AACS), a tendência é que outros assumam a liderança e a informação se replique sem parar pela rede. A ideia nova foi lançada, não há mais como dispensá-la, pois sempre haverá alguém disponível para continuar, e até mesmo expandir, o projeto.

4 Comentários

Arquivado em Vigilância, Wikileaks

4 Respostas para “Wikileaks e a vigilância distribuída

  1. numa de minhas últimas aulas foi comentada essa nova vigilância, que difere da do livro de Orwell (era outro contexto social e histórico). Em vez do controle central, temos a sociedade controlando tudo.
    Para o bem e para o mal.
    Sai o panóptico e entra o sinóptico. Não conheço ainda o texto, mas parece que Bauman escreveu a respeito.
    Bjs.

  2. Pingback: Sujeito a Termos e Condições | Autoria em rede

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s