Hackers – os dissidentes do capitalismo digital

Pra se pensar o fenômeno da autoria colaborativa um dos pontos que acho muito interessante é conhecer um pouco da história da invenção da Internet, na qual podemos constatar com muita clareza a ação fundamental dos hackers na definição dos parâmetros da comunicação mediada por computador. Já escrevi um artigo sobre isso.

Pra começo de conversa, é preciso diferenciar cracker de hacker. Os primeiros são os criminosos que invadem os computadores à procura de senhas com o objetivo de roubar, agem em benefício próprio e com fins escusos. Com os hackers a estória é totalmente outra: são aqueles aficionados por tecnologia que gostam de desvendar os sistemas de computação, têm a cooperação produtiva como o modelo de trabalho e a defesa do livre fluxo de informação como condição para a plena realização deste modelo.

Sua história começa no final da década de 50 do século passado, quando participaram da chamada revolução informática, impregnando o que seria mais um projeto de expansão tecnológica com sua cultura libertária. A ação dos hackers, sobretudo, foi determinante para gerar um tipo de ocupação da rede, na qual as relações de trocas entre parceiros são privilegiadas. Essas parcerias, que estiveram presentes desde a criação da Internet, povoaram a rede e inverteram o seu propósito inicial de ser um espaço de comando e controle. As novas associações geradas pelas redes de parceria fazem o conhecimento crescer exponencialmente como capital social partilhado, e afirmam sua potência de comunicação e de gestão do bem-comum.

As redes peer-to-peer, por exemplo, são uma das criações dos hackers. O interessante é perceber o caráter contínuo e distribuído da sua ação. Pouco importa que uma rede caia, como no caso Napster, outras serão criadas ad infinitum porque sempre há hackers atuando para garantir que os canais de compartilhamento se mantenham em plena operação. Como uma dissidência do capitalismo, como uma militância incansável pelo livre fluxo de dados.

Herdeiros do modelo de produção do conhecimento científico praticado pela academia, no qual a evolução da ciência se dá pela troca de informação e colaboração entre pesquisadores, radicalizaram a máxima do conhecimento compartilhado como a base de seu modelo de cooperação produtiva, transformando-a em uma bandeira pela livre circulação de informação entre parceiros na rede. Fazem parte da classe dos trabalhadores do imaterial, profissionais altamente qualificados, no entanto, não desejam se incluir na elite desse novo modelo produtivo, mas sim professar outros valores de vida: têm o prazer como sua mais forte motivação no trabalho e defendem o compartilhamento das informações como o método de sua produção.

Filiam-se a uma outra ética, como argumenta Pekka Himanen oposta à ética protestante do trabalho, definida por Max Weber. Enquanto a ética protestante tem o trabalho como valor em si mesmo e como dever, para o hacker trabalho é paixão e divertimento. Diversão não como um passatempo sem compromisso ou esforço, mas, ao contrário, uma diversão acompanhada de grande dedicação.

Além de terem influenciado as práticas sociais na rede com a disseminação da cooperação produtiva como seu método de trabalho, os hackers contribuíram de maneira determinante para a reconfiguração do direito autoral e mesmo da concepção de autoria. O movimento do software livre, iniciado na década de 80 pelo pioneiro Richard Stallman, rendeu não só uma ampla e bem-sucedida produção de programas feitos de forma aberta e coletiva, como o sistema operacional Linux, por exemplo, o maior concorrente em escala mundial do proprietário Windows, mas também uma nova forma de se entender e praticar a autoria de softwares. Inclusive uma nova licença, a GPL – General Public License, adequada a um modelo autoral livre e colaborativo.

Vale visitar a página da Free Software Foundation para conhecer um pouco mais dessa história.

A cultura de compartilhamento que é a alma, ou o coração, da rede deve muito a ação desses dissidentes do capitalismo digital, como define André Gorz, que investiram sua criatividade na construção de softwares para a livre circulação da informação e para o trabalho cooperativo.

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Arquivado em Cibercultura, Cultura hacker

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