Autoria maquínica – o computador autor

Um dos aspectos mais instigantes relativo aos processos autorais de escrita eletrônica é quando em cena um elemento que desloca de vez a noção de autoria como algo de natureza individual e mesmo humana: o próprio computador no papel de agente criador. Mais do que mero processador e armazenador de informações, o computador nesse caso é um manipulador de signos.

A participação do computador na criação textual é algo pouco explorado, ainda nascente, que pode ser observado especialmente em alguns projetos artísticos. Vamos nos deter aqui na análise um exemplo dessa autoria maquínica ligado à produção textual, denominado de texto generativo ou literatura generativa.

A construção desse tipo de obra se dá em dois momentos: uma do planejamento; e outra de sua execução propriamente dita. Em primeiro lugar, o homem, meta-autor, pensa o projeto e define suas variáveis, ou seja, desenvolve as diretrizes do software. Na segunda etapa, a máquina processa essas informações e apresenta múltiplos resultantes, na forma de construções discursivas que são atualizações do campo de virtualidades.

No entanto, as saídas criadas pelo computador são potenciais mas não previsíveis. Inventam um campo de significados não imaginados a priori e podem surpreender com a invenção de signos e sentidos originais. Como gera um novo, pode desestabilizar o pensamento e instigar reflexões. Nesse sentido, pode-se pensar a máquina como parte atuante no processo de criação artística, já que ela fornece elementos que deslocam o entendimento e a percepção de forma única e original.

Clique aqui para conhecer Sintext de Pedro Barbosa

Como exemplo de projetos dessa natureza podemos citar o Sintext, de Pedro Barbosa , um projeto de literatura algorítmica. A partir de um eixo sintagmático (sequência parentetizada) e um eixo paradigmático (base lexical conjugada), o computador gera uma infinidade de produções discursivas com diferentes significados. Aqui pode-se falar na existência de um texto virtual, no sentido de que é um texto que pode se desdobrar quase indefinidamente em outros textos, com sentidos originais, muito além de uma predefinição já dada.

Clique aqui para conhecer o Poemário

Na mesma linha, vale conhecer o projeto Poemário de Rui Torres e Nuno Ferreira, um gerador de poemas combinatórios.

Um outro exemplo é o projeto experimento tecno-poético intitulado “máquina de escrever avariada” de Artur Matuck, uma proposta de eletroescritura. A primeira destas máquinas, Theoretical Wind, um subprograma computacional, retirava consoantes e vogais de uma palavra digitada e inseria apenas consoantes em seu lugar. Daí eram criadas novas palavras que por sua vez geravam maior complexidade semiótica, na medida em que propunham significantes originais que poderiam contribuir para a renovação do código linguistico. Diversas “máquinas avariadas” estiveram disponíveis no site Landscript entre 2001 e 2005, atualizando o projeto original da eletroescritura para usuários online. O poema Hpistemmlogy, escrito em 1995 em Gainesville, Flórida, é um exemplo desse processo autoral homem-máquina criado por Matuck:

Hpistemmlogy
epistrmobogy
epistemologt
epistpmoloyy
epistemoqogy
epistemtlogr
epistxmology
episvcmohogy
ebhstvmology
episteqolqgy
hpistemmlogy
Epistemology (MATUCK, 2009, p. 6)

É possível observar a filiação desses projetos às primeiras experiências de Arte Combinatória, que remontam pelo menos ao século XIII com as ideias do filósofo catalão do século 13 Ramon Lull, e que ganharam maior densidade com a Dissertatio de Arte Combinatória de Leibniz, no século XVII.

Um exemplo contemporâneo bastante conhecido é o poema Cent Mille Milliards de Poèmes, criado em 1961 por Raymond Queneau, do grupo francês OULIPO – Ouvroir de Littérature Potentielle (Oficina de Literatura Potencial). Composto de dez sonetos de 14 versos alexandrinos impressos em tiras diferentes, que podem ser manipuladas de forma independente, permitindo montar 100 trilhões (1014) de combinações aleatórias. E a cada composição tem-se uma variação semântica no mesmo estilo do que resulta nas experiências de texto generativo: criando novos sentidos a partir de uma virtualidade de variáveis.

Vemos, portanto, que a ideia de uma produção textual que tenha por base uma inspiração matemática, com elementos de composição aleatórios e imprevisíveis, e que possa assim desestabilizar um campo de significações até certo ponto controlado por um autor, existia muito antes da invenção da informática. No entanto, o computador, com sua velocidade e automação, tornou possível um sem número de projetos experimentais que exploram de forma muito mais ampla a produção de textos combinatórios generativos. A máquina digital elevou exponencialmente o potencial da geração automática de textos a partir de variáveis a uma proporção antes inimaginável.

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