Mais um estudo foi divulgado com dados que colocam em xeque os argumentos da indústria cultural contra a livre distribuição de produtos culturais pela internet através de redes peer-to-peer, como LimeWire ou BitTorrent. (No post anterior, eu escrevo sobre outro argumento que foi derrubado – o da ligação entre pirataria e organizações criminosas.)
Um desses argumentos é que a falta de cobrança de direitos autorais sobre a circulação da música teria como efeito uma queda na geração de novas produções, pois afetaria toda a cadeia produtiva. Por exemplo a RIAA, associação da indústria fonográfica norte-americana, talvez a maior adversária institucional das redes de compartilhamento de arquivos, declara que “Nosso objetivo com esses esforços anti-pirataria é proteger a capacidade da indústria fonográfica de investir em novas bandas e novas músicas…”.
No entanto, a pesquisa de Joel Waldfogel, da Universidade de Minnesota, concluiu que o número de lançamentos de novos álbuns e de novos artistas não diminuiu após a disseminação das redes peer-to-peer, mesmo que a indústria tenha registrado grande redução nas vendas.
Entre as razões para a chegada de novas produções ao mercado, o estudo aponta a diminuição de custos proporcionada pelas tecnologias digitais, tanto na produção como na promoção e distribuição.
Se antes um artista tinha que passar pelo filtro dos executivos da indústria fonográfica para ter a chance de levar seu trabalho ao grande público, hoje ele pode fazer isso com um equipamento doméstico de baixo custo. Colocar suas músicas no MySpace e Youtube, promover nas redes sociais – deixar que circulem nas redes de compartilhamento – e assim conquistar o seu espaço.
Da mesma maneira, o rádio não é mais o responsável pela divulgação de novas músicas. Atualmente nos EUA, de acordo com outro estudo, a internet é a principal fonte para a descoberta de novos artistas e músicos por consumidores na idade entre 12 e 34 anos.
Outra constatação é a relevância de selos independentes nesses lançamentos, já que não precisam de um retorno tão alto nas vendas para ter lucro, e por isso estão mais abertos para explorar e investir nas novidades.
Esta pesquisa vai na mesma direção de outras investigações que demonstram que está havendo uma grande transformação na forma como os bens culturais são produzidos e distribuídos na era das redes de comunicação. Enquanto novos modelos de remuneração do artista são criados, as antigas formas de proteção da propriedade intelectual e de controle da circulação de cópias estão sendo desestabilizadas.
São tempos de mudança, profunda e irrefreável. A indústria resiste, quer manter o modelo de lucro através da venda de cópias, já ultrapassado pela tecnologia e pelas práticas sociais. Criminalizar grande parte da população mundial pela forma como consomem cultura não parece ser a forma mais inteligente de enfrentar esse desafio.
Leia o artigo sobre a pesquisa – Bye, Bye, Miss American Pie? The Supply of New Recorded Music since Napster
Também relacionada ao assunto, vale ler a matéria do Estadão – Atlas mundial da Pirataria





